Composição e arranjo no mundo digital: como é o seu uso da DAW e outros softwares nesse processo?

Autor Mensagem
waltercruz
Veterano
# out/12


Fala pessoal, esse é um assunto que apareceu incidentalmente na thread do Desafio Um Synth Apenas, e como é um tema interessante por si só, resolvi trazê-lo para uma thread por si própria.

Meu primeiro intento era trazer a thread "Como é o seu processo de composição" de volta a vida, mas como foi sugerido eu criar um novo, vamos lá! :)

Vou colar o que o pessoal já escreveu lá na outra thread.

waltercruz
Veterano
# out/12
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Resposta do Adler3x3

Eu faço assim:
- vou criando tracks com novas instâncias, e sempre observo a utilização dos recursos do computador, e vou enchendo o projeto de tracks até um certo ponto;
- quando a track esta razoável, congelo (freeze), mas não gosto muito de fazer isto;
- quando esta boa, depois de verificar que esta compatível com a música e os outros instrumentos, transformo para áudio, e mantenho a track mid (devidamente identificada) sem nenhum instrumento, e jogo para baixo;
- muitas vezes exporto para outra daw ou editor externo para fazer pequenos ajustes no arquivo de áudio; (cada diferente daw tem recursos próprios que podem fazer diferença);
- tudo depende dos Vsts e da capacidade do computador, o que mais exige recursos do computador são os efeitos (só um efeito de guitarra pode deixar tudo pesado);
- eu gosto de usar uma instância para cada track, mas tem softwares que permitem criar sub-tracks e usar um único VST para vários instrumentos, minimizando assim os problemas;
- uma track inicialmente pode parecer boa, mas depois com a evolução da música, pode ser descartada, principalmente quando ocorre conflito no espaço sonoro;
- evito o máximo possível o uso de compressores;
Sempre é bom trocar dicas sobre estes detalhes, pois estamos sempre aprendendo, e de repente pode aparecer um dica útil que desconhecemos.
E também vou salvando, tipo Versão 1, 2 etc..

waltercruz
Veterano
# out/12
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Resposta do Ken Himura

Meu processo é mais ou menos parecido. Só que eu já parto pro daw com a música pronta, geralmente (menos quando é composição pra imagem, aí não tem jeito). Escrevo a música toda ou quase, geralmente no papel (quando tenho tempo), passo pro editor de partituras e acerto tudo. Geralmente nessa fase, eu já tenho ciência dos timbres que quero, às vezes faço anotações pra ajudar depois na montagem.

Exporto em midi, coloco no daw e vou montando as vozes. Quando é um instrumento acústico fora teclados, abro 2 ou 3 tracks e coloco um sample diferente em cada pra depois formar um timbre único, mais realista. Ajeito os pans todos, faço grupos e zás. Aí, equalizo instrumento a instrumento, depois aplico efeitos, se necessário reequalizo. Geralmente aí, eu renderizo a track, exporto o mid dela com o nome da voz e só fico com o áudio mesmo pra liberar memória e cpu.

Depois de fazer isso com todos os instrumentos, parto pra equalização master, acerto os níveis todos e parto pra finalizar o mix.

Dá um trabalho do caralho geralmente, mas prefiro trabalhar assim.

Pra imagem, como eu disse, parto direto do daw, mas já tenho algumas idéias escritas que eu monto na piano roll, olhando pro vídeo ao mesmo tempo. Daí faço um processo idêntico ao anterior pra finalizar a música.

waltercruz
Veterano
# out/12
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Eu raramente chego ao computador com uma idéia pronta. Nessa hora, aquela míriade de coisas que a gente acumula mostra a sua cara: as vezes um patch diferente, um timbre bacana, uma sample interessante, podem ser o mote que dispara um momento criativo. Eu não sei o que dispara esses momentos em vocês, seria algo tb interessante de saber.

A partir daí, sigo pro trabalho duro. Das ferramentas a que acabo voltando, uma delas é o Battery (ainda versão Jack Sparrow!). Embora eu tenha aqui o Steven Slate Essentials e o Abbey Road 60s Drummer, eles são acústicos, e normalmente os estilos que eu trabalho requerem uma bateria mais eletrônica.

Para equalização, eu tenho gostado muito do MEqualizer, do Bundle Free dos Plugins Melda. Ele tem a opção de mostrar o Espectograma, que eu acho bem útil para ver as frequências. O equalizador do Ableton eu acho mais complicadinho de usar, por não dar a referência visual do que você está mexendo, mas acabo voltando para ele quando quero equalizar alguma coisa mid/side.

Da mesma forma, acho o Reverb do Ableton muito detalhado, complexo e complicado, e acabo recorrendo a plugins externos, alguns gratuitos como o OldSkoolVerb da Voxengo (que tem excelentes produtos e alguns deles gratuitos) ou ao CSR Reverb da IK Multimedia.

Eu não gosto muito de usar o freeze não, embora as vezes seja necessário. Como o Adler apontou, existem softwares que permitem trabalhar com multicanais, aí você carregaria o software apenas uma vez, e dentro dele criaria várias instâncias dos samples/timbres que deseja usar, e cada canal da DAW controla um canal desse software. Softwares que trabalham assim são o Kontakt e o Sampletank, já fiz algumas coisas dessa forma, mas confesso que também não é um worfkflow a qual esteja acostumado.

No processo de finalização, geralmente tenho passado apenas um Limiter para trazer os níveis da música a um nível mais padrão. Minha DAW de trabalho é o Ableton. Pelo preço, as vezes eu penso em dar uma olhadinha no Logic pq legalizá-lo seria uma opção razoavelmente barata. Ainda não tenho monitores de referência, mixo as coisas num fone (Shure SHR840), sei que nele falta algum grave, mas ainda não me eduquei de forma a buscar alguma compensação pra esse grave que falta depois.

Enfim pessoal, esse é mais ou menos um panorama de como eu venho trabalhando as coisas.

Adler3x3
Veterano
# out/12 · Editado por: Adler3x3
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Bem eu uso várias Daws.
Não me contento com uma só.
No fundo no fundo são todas parecidas, o que muda é a GUI (interface de acesso), e alguns recursos exclusivos de cada uma.
Umas mais práticas, outras nem tanto.

Neste post vou me concentrar no uso das DAWS e de outras ferramentas que utilizo.

Principais:
- Band in a Box
Para criar os acordes e acompanhamento, depois exporto para midi.
Tem uma biblioteca completa de acordes, e muitos e muitos estilos (mais de 3000)
Tem recursos de se obter a cifra de qualquer arquivo de áudio, e o melhor é que depois dá para criar um novo arranjo quase que automaticamente.
Tem instrumentos muito bons chamados Real Tracks, muitas vezes aproveito partes destes instrumentos (ou até linhas completas)e exporto para Wav;
Assim como o Real Drums de bateria que é muito bom.

- Real Track
Outra DAW que vem junto com o Band in a Box, e tem muitos recursos, ainda estou aprendendo a usar melhor.
Mas é muito útil para importar arquivos de áudio e descobrir as Cifras, como também mudar o tom (pitch) e tempo.
E tem muitas outras ferramentas e trabalha junto com o Band in a Box.

- Magix Studio/ Magix 2013
Uso mais para trabalhar com Loops, tem muitos recursos para melhorar certos timbres.
Também muito bom para descobrir cifras.
Para edição de loops é muito bom para alterar o pitch e o tempo
Tem uma boa biblioteca de loops

Samplitude Pro X Silver
To aprendendo a usar, ainda não aproveitei os recursos.

LMMS - Linux Multimédia Studio
As vezes em quando uso tanto no Linux como no Windows.
O programa é free e esta evoluindo bem, tem bons recursos para fazer arpegios.
Usando no Windows dá para aproveitar muitos efeitos que só existem no Linux.

Rosegarden (linux)
Uma DAW muito boa no Linux, que aproveito as vezes para criar sons de um orgão de Igreja bom que tenho no Linux.
É bom também para fazer edições em midi.

Reaper
Uso mais no Linux, uma vez que é fácil de instalar e roda bem.

Mixcraft
É minha principal DAW, na maioria das vezes exporto todo o trabalho das outras Daws e finalizo no Mixcraft.
A maioria das partituras acabo compondo no Mixcraft.
Tem uma extensa biblioteca de loops, e a maior vantagem é que é muito prático e objetivo, e tem uma boa edição de midi, e muitos instrumentos e Vsts de efeitos.
E muito flexível para a manipulação de loops.

Web nas nuvens
Estou começando a utilizar DAWs na Web, o que pode ser interessante para obter tracks com novos instrumentos.

Fora outras DAW no Linux.

Outras Ferramentas:
- Audacity
para fazer rápidas edições de áudio e muito mais.
- Muse
para fazer partituras tanto no Windows como no Linux.
- Wavosaur
para fazer edições mais complexas, usando grande variedade de Vsts.
Dá para fazer boas masters com este programa.
- Magix Music Editor
para edições rápidas de loops e até master.
- Onyx Arranjer Le
bom para edição de midi, com recursos para humanizar e conseguir melhor expressão.
bom para aprender a usar expressão e outros recursos midi, dá para modular o midi com várias ferramentas.
- Style Enhancer
também muito bom para edição de midi.
- Guitar Pro
para edição de partituras e Cifras para violão e guitarra, para depois exportar em midi para as outras Daws.

Senão esqueci de nada é isto.

E o Teclado Arranjador PSR S 910, que tem muitos recursos.
Muitas vezes exporto da DAW para o teclado, e depois devolvo.
E também posso usar o teclado como um módulo da DAW.
As vezes faço gravações no próprio teclado e exporto em wav para a Daw. (pois o teclado tem ótimos efeitos DSP, e mais de 1000 instrumentos), como as Mega Voices que são ótimas para trabalhar com midi)
E também exporto midi.
E dá para gravar bem o violão na entrada do teclado, como também gravar vocais, baixo, guitarras, flauta etc...
E para criar batidas de bateria também funciona bem, basta ter paciência e ir trabalhando.
O uso combinado do teclado com as DAWS dá bons resultados.

Cada DAW tem as suas características e vantagens únicas.
O ideal é aproveitar o que cada uma tem de bom, seja na edição e na aplicação de efeitos, e também dos instrumentos exclusivos.
Fora outras DAWs que pretendo adquirir: Sonar (que comecei a usar no tempo do DOS e sinto saudades); Samplitude completo; Studio One, e a lista não termina aqui.
E o futuro?
Quero transformar um PC bom que tenho em Mac, para usar as Daws deste sistema.

E nestes dias estava pensando em recuperar ou comprar um novo caderno para anotações gerais dos projetos (a caneta mesmo, ainda é a melhor opção)

Casper
Veterano
# out/12
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Eu faço quase tudo longe do PC, e cada vez mais a tendência
do meu modo de fazer as cisas se caminha nessa direção.
Eu uso um multitrack "físico" (BOSS) e um Gravador de 1/4" (Akai).
Eu uso o PC basicamente para:

a) Sequenciar MIDI (coisas externas);
b) Tranformar o WAV em MP3.

Muito raramente eu mixo no PC, mas é uma possibilidade.

O processo de composição varia, mas geralmente é no
violão ou guitarra, onde me sinto mais a vontade.
Gravo tudo, sempre, qualquer coisa em qualquer instrumento.
Se sair alguma coisa, já está registrado de alguma forma.
Quando junto algumas idéias, faço uma guia com violão e metrônomo,
depois vou adicionando camadas de coisas para preencher os
buracos.

Shadad
Veterano
# out/12 · Editado por: Shadad
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Geralmente já vou para a DAW depois que terminei toda a pré-produção

Faço harmonias, melodias e linhas de baixo usando somente o teclado com timbre de piano mesmo. Depois passo isso para algum editor de partituras (Encore ou Finale) . A partir daí a música vai tomando forma e é no editor de partituras que a música é terminada. Gosto de estar vendo todas as notas na pauta, não me conformo com tracinhos dos piano rolls da vida. Depois de terminar essa parte mais criativa eu exporto o MIDI e o abro no Guitar Pro para colocar mais expressões (dinamicas, tremolos, vibratos, bends...) nas notas. Acho o Guitar pro bom para isso. Depois exporto o MIDI de novo e finalmente abro na DAW.

Já na DAW (SONAR, na maioria das vezes), uso pouquíssimos VSTis. Trabalho mais com soundfonts, por serem arquivos leves e personalizáveis. Para bateria e percussão eu geralmente uso loops prontos (em WAV, AIFF ou RX2), mas quando não acho o groove que eu quero acabo escrevendo também. Minhas produções/composições/arranjos sempre são para bandas e para serem usadas como guia em estúdios. Transformo o midi em áudio, humanizo cada track o máximo que posso, as trato com compressão moderada e ambiencia (Lexicon Pantheon) se necessário, consolido o áudio e depois exporto o projeto em OMF, para ele poder ser aberto em outras DAWS.

Na trilha master, eu uso um vizualizador de espectro, um equalizador, um compressor, um compressor multi banda e um limiter. Tenho preferencia pelos plugins da Sonalksis, T-Racks e Waves. Quando estou com pressa eu uso somente o Izotope Ozone na trilha master.

Depois que os projetos vão para os estúdios, os instrumentos virtuais sempre são substituídos por instrumentos reais no final das contas. Somente as trilhas de teclados, percussão ou efeitos sonoros são aproveitadas na mixagem final.

Adler3x3
Veterano
# out/12
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Improvisos

Outra parte importante no processo de composição são os improvisos.
Todos nós passamos as vezes tocando no teclado de forma improvisada, seja com acompanhamento ou não.
Costumo gravar muitos deste improvisos no teclado e depois exporto para midi, e deixo guardado, com data e o nome do estilo da música.
E depois de um certo tempo escuto novamente usando Vsts, e sempre aparece algum material que pode ser aproveitado em uma outra composição.
Muita vezes não se aproveita nada, mas existe a possibilidade de que alguns compassos possam ser aproveitados com algumas correções e pequenas mudanças.
Não dá para escrever em termos percentuais o que pode ser aproveitado, mas não deixa de ser um método válido, que tem a principal característica na espontaneidade e na liberdade do improviso.

Casper
Veterano
# out/12
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Caro Adler3x3:

Como o tempo de gravação disponível com DAW
é praticamente infinito (em relação aos métodos
tradicionais) penso que vale a pena registrar tudo,
mesmo que seja para descartar a maioria das
coisas depois, e salvar apenas fragmentos, que
vão compor um "banco de idéias".

Adler3x3
Veterano
# out/12
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Casper

Boa esta dica de salvar apenas fragmentos e chamar a pasta de arquivos de banco de idéias.
Esta dica vou aproveitar.

Ken Himura
Veterano
# out/12
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Um professor do curso que faço disse uma vez que vale à pena guardar tudo, seja escrito, midi ou gravado. Ele trabalha fazendo trilha pra tv e cinema, diz ele que você faz tanta música prum mesmo trabalho porque o diretor escolhe o que fica e o que não, aí você guarda isso e usa em projetos depois.

As "regras" são:

- Não ter julgamento prévio da música. É importante isso porque muitas vezes vamos achar que tá tudo uma merda e querer apagar tudo. Toda ideia musical presta, basta achar um contexto ideal para ela;
- Se for um trabalho, só deixar pra colocar nome na música depois da aprovação do contratante/diretor. Pra evitar que você se apegue à música e ficar na merda se o cara não gostar ou não achar que está boa pro projeto. Salve com a data ou com uma sequência numérica;
- Trilhas sonoras vão sofrer mudanças, é fato. Os caras vão mudar o tamanho das entradas, o diretor vai chiar, vai ser um diabo alado. Então, salve cada versão como uma variação do nome da primeira, a original - ajuda a manter a integridade do banco de sons;
- Mantenha um caderninho, ou algo similar, pra manter em um meio palpável os seus pensamentos sobre a(s) música(s) que você está fazendo no momento. Se você precisar revisitar sua obra tempos depois, vai ter todo o pensamento dela já anotado. É bom isso porque, vai por mim, 2 meses tendo que fazer 3 músicas por semana é uma eternidade. Você vai bater o olho e pensar "fudeu!", e ter que analisar toda a peça... além de perder muito tempo (na tv é a lei do Super Sam: "Time is money!"), é capaz de você desistir e querer mudar algum pedaço por preguiça mesmo...

Bem galera, é isso por enquanto. Depois ensino umas técnicas de composição que são muito usadas pra trilha. São uma espécie de "atalho" pra compor, exatamente pra sair algo bom (o que eu chamo "som hollywoodiano") sem ter que quebrar a cabeça se matando pra tentar achar uma música boa. Praticando, com o tempo você fica tão craque que escreve, com o mesmo material, muitas variações de clima com mudanças pontuais num tempo recorde. Bem legal mesmo!

Adler3x3
Veterano
# out/12
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Ken Kimura

Ficamos no aguardo. sobre a produção do som hollywoodiano, que por si só vai gerar muitos debates.

waltercruz
Veterano
# out/12
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Shadad
Vc escreve guias para a produção de bandas é isso?

waltercruz
Veterano
# out/12
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Adler3x3 eKen Himura

Outro aqui no aguardo sobre a produção de trilhas.

Shadad
Veterano
# out/12
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waltercruz

Eu componho ou arranjo. Arranjo na maioria das vezes. As guias vão de "brinde" com a composição/arranjo.

Ken Himura
Veterano
# nov/12
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Amigos desculpem o hiato de um mês, mas é que tive uma correrias infindáveis nestes dias e só tá afrouxando agora. Como o material a discutir aqui é monstruosamente enorme, preferi me dedicar quando tivesse um bom tempo para escrever e para acompanhar o desenrolar das discussões acerca do assunto.


Num primeiro momento, vou falar deste "som hollywoodiano", mas isso vai gerar várias outras questões correlatas, seria bom abrir um tópico pra cada uma pra não deturpar o entendimento do assunto original, e virar tudo um grande samba do crioulo doido!

Aqui, agora, vou falar sobre técnicas de composição específicas para "acelerar" a produção de uma - ou várias - música(s) de qualidade, o que é imprescindível para um compositor de filmes holywoodianos, dada a velocidade que ele deve entregar o score e o padrão elevadíssimo de qualidade que ele deve manter porque, afinal, está recebendo centenas de milhares de dólares (às vezes, na casa dos milhões) pra fazer aquela trilha. E quem paga 1 milhão de US$, obviamente não quer um produto meia-boca.

Outros colegas que tenham sólida formação em composição podem (e devem! hehehe) ajudar no tópico, como o Maestron, Jabijirous, fernando tecladista e outros. Outras discussões que provavelmente vão surgir deste tema: soft synths e seu uso para cinema, orquestração e harmonia acústica, arranjos e harmonizações, produção e gravação de trilhas...

Bem, começo a discorrer sobre o assunto na próxima postagem.

Ken Himura
Veterano
# nov/12
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O primeiro passo, na minha opinião, é buscar uma base de teoria sólida. Não é preciso nem saber ler partitura para ser um compositor de filmes – até mesmo em Hollywood – mas, pra não depender exclusivamente do trabalho de outros, eu acho melhor saber ler partitura em todas as claves, além de ter ótimos conhecimentos em harmonia, forma, contraponto e orquestração, porque vão ser importantes mesmo pra quebrar as regras e fazer uma “anarquia”. Acho que só tem a ganhar com isto. Porque, como disse no tópico que gerou isso, dificilmente (pelo menos agora) teremos alguém pra fazer o grosso pela gente – coisa que o Scott Smalley fez pelo Danny Elfman algumas vezes. Dificilmente por alguns motivos: não somos músicos de rock famosos como o Danny Elfman para sermos “convidados a ganhar dinheiro” fazendo trilhas; nossos projetos aqui no Brasil dificilmente vão chegar a 10% dos valores que giram por lá, principalmente como iniciantes no ramo; e por último, mas não menos importante, aqui no Brasil o compositor tem que fazer tudo – poucas vezes vão dividir a tarefa em compositor, orquestrador, programador de daw/synth etc.

Aqui, vamos ter que ralar com tudo geralmente sozinhos e com pouco tempo para entregar. E não, não dá pra atrasar – a multa é PESADA, e pior, te queima profissionalmente. Como o nicho é muito pequeno e praticamente todos que mandam são amigos, se se queimar com um, se queima com todos. Política do bingo da amizade, hein galera.

Partindo deste pressuposto, vamos ao tema deste tópico: “atalhos” composicionais; técnicas para acelerar a composição de músicas que soem bem dentro de um padrão. Todos os exemplos que eu usar serão na grade de piano, mas pode ser feito em qualquer clave, qualquer instrumento ou combinação de instrumentos.

Vamos supor que você trabalha com isso e agora (01h00 do dia 27/11/12 – 3ª feira) você recebe uma ligação de um diretor/produtor querendo que você faça a trilha para o curta dele. Só que tem um porém: ele tá com o prazo praticamente estourado e teve que detonar o último compositor; a trilha deve estar finalizada até domingo. E aí, aceita o pepino ou dispensa?

Aqui é que entra a técnica de um compositor. Você NÃO PODE NUNCA ser refém da inspiração. Compor é aliar criatividade à técnica; criatividade não se ensina. Mas técnica sim! E como toda técnica, a prática constante leva a um grau de proficiência excelente. Isto é ainda mais verdadeiro quando aplicado ao compositor de trilhas, que além disso tudo, tem prazos curtos para entregar os trabalhos, daí surgem pequenos “atalhos” para facilitar o trabalho, todos derivados de técnicas tradicionais de composição.

Temos que, primeiramente, entender o que seria o “Som Hollywood” para entender o que precisamos buscar. Então, um resumão da história do cinema no século XX: O cinema era mudo no início. A música era feita ao vivo por formações diferentes, dependia de quanto $ o cinema (ou rede de cinemas) tinha, e tocava um repertório aleatório de músicas, geralmente dos grandes mestre. Aos poucos, os produtores começaram a perceber que a música podia interagir com a imagem para pontuar a emoção e ação das cenas – aí, começou de fato a trilha sonora – o cinema expressionista alemão (FRITZ LANG!!!) era muito influente nisto (procurem ouvir a soundtrack intera de Metropolis). Com o advento do cinema falado, a trilha começou a ser incorporada pra dentro do filme, não mais sendo tocada ao vivo – o que alavancou avanços na tecnologia de gravação. Com as Grandes Guerras Mundiais (principalmente a 2ª), muitos compositores europeus fugiram para os EUA; vários se estabeleceram como compositores para filmes. Nesta época, a linguagem musical passava por uma leve crise, com o advento do modernismo e das muitas escolas de pensamento que surgiram – mas uma coisa era comum a todas: a negação dos valores românticos como ultrassentimentalismo, exageros (de virtuosismo, de orquestração, de harmonia etc), orquestras enormes... então, adeptos desta linguagem se aproximaram quase que naturalmente das produtoras de cinema e, a partir de então, trilha sonora passou ter música pra orquestra enorme como um dos sinônimos, com linguagem romântica tardia; Erich Korngold é um grande exemplo aqui, também Alfred Newman (o compositor do tema da 20th Century Fox) e Max Steiner (“E O Vento Levou”, “Casablanca”, “King Kong”). É notável a semelhança dessas trilhas com a música para ópera.

O modernismo começou a ter lugar a partir da década de 50, com experimentos com jazz, atonalidade (serialismo principalmente) e técnicas extendidas instrumentais, com Leonard Rosenman (“Juventude Transviada”), Duke Ellington (“Anatomia de um crime”), Bernard Hermann (“Vertigo”, “Psicose”), Jerry Goldsmith (“Freud, além da alma”, “Patton”, “Planeta dos Macacos”) entre outros.

A partir daí, a outra grande “revolução” na música para cinema aconteceu quando o sintetizador começou a ser incorporado como um instrumento da orquestra, entre os anos 70 e 80, e técnicas minimalistas começaram a ser assimiladas também. Aí aqui, Goldsmith, de novo, aparece muito bem (“Alien: o 8º passageiro” é um marco), junto de John Willians. Depois surge Hans Zimmer, Marco Beltrami, Danny Elfman e toda essa galera que tá aí hoje.


Jerry Goldsmith é considerado o cara que linkou e praticamente uniu as duas tradições de Hollywood: o estilo neo-romântico comum até os 50’s com o estilo moderno que aparece bem em filmes de terror, como Alien e Psicose. Ele também é um dos que primeiro começou a usar o conceito de harmonização pela mediante (veremos isso já já) em cenas porque percebeu que cadências perfeitas de certa forma davam uma sensação de slowdown no movimento da imagem – então, II-V-I é uma das últimas coisas que você vai pensar em trilhas pra filmes.

Agora, acabando com a enrolação, vamos meter a mão na massa já que sabemos o tipo de som que esperam os consumidores e diretores de cinema. Voltando ao nosso exemplo do curta pra ser finalizado em 5 dias, o que fazer? A resposta é arrumar uma ideia musical boa o mais rápido possível. E como fazê-lo? A parte divertida da história: brincando.

Sem escrever ritmos (usando apenas bolinhas pretas sem haste), comece a soltar notas aleatoriamente no papel, em regiões diferentes. Aleatoriamente mesmo, “coerência” não é o importante agora. Por exemplo, eu fiz isso aqui: Lá, réb, sol#, fá, sib, mi, dó, dó#. Não devemos batizar a música também; então, sem nomes. Eu me refiro às minhas idéias por numeração, esta aqui vai ser a ‘0001’.
https://lh5.googleusercontent.com/-ldfb1N3ohw8/ULQ8RI-IM3I/AAAAAAAAAJs /gN40V-pTlz8/s746/t%25C3%25A9cnica%2520r%25C3%25A1pida%25201.png

Agora, vamos fazer a mesma coisa com a harmonização. Todos sabemos que a harmonia tonal é construída com o empilhamento de terças, então vamos só usar acordes de terças empilhadas por enquanto (todos os acordes tonais, gente – qualque acorde que seja baseado no 1-3-5-7-9-11-13 ou em “mexidas” nisso, como os acordes com 4ª e 6ª). O pensamento aqui é: qual acorde tem esta nota?

Pro lá, eu escolhi Dm. Sib foi Bbm. Esse Sol# poderia estar num A7+, mas quero ele num E Maior. Novamente, escolhas aleatórias, em qualquer inversão!
https://lh5.googleusercontent.com/-jijdCh-JfbM/ULRBFf-bsaI/AAAAAAAAAKQ /gIsy3BLW14w/s747/t%25C3%25A9cnica%2520r%25C3%25A1pida%25202.png

Aqui é um ponto chave. Às vezes, já tá soando tão bem que não queremos nem mudar nada a nível de harmonização. Mas, lembre-se que é música pra filme, não música por música, temos que pegar nosso material e fazer diferentes climas com ele, para ser utilizado ao longo do filme, de acordo com as necessidades expressivas da cena.

Agora, vamos olhar o contorno melódico do que fizemos. Não sabe o que é contorno melódico? Bem, pegue esta nossa partitura e trace uma linha ligando uma nota na outra. A do topo sempre liga com a do topo, a de baixo sempre com a de baixo e por aí vai. Essas linhas são os contornos melódicos das vozes que temos no papel agora. É importante observarmos isto porque cada clima evoca um arquétipo/clichê diferente de melodia: por exemplo, o clima “romance” pede muitas notas de grau conjunto seguidas enquanto que os climas para ação usam muitos saltos.

Há 3 formas melódicas básicas para este trabalho, é comum encontrar textos se referindo a elas como linha, círculo e quadrado.
* Linha: Em sua forma básica musical, a linha é simplesmente uma sequencia ininterrupta da mesma nota.
* Círculo: O círculo é melhor representado por uma forma em escala, ou uma sucessão de notas próximas, tanto ascendentes como descendentes. Na prática, podemos pensar como uma onda senoide
* Quadrado: Qualquer salto melódico que seja maior do que uma 2ª representa o quadrado. O quadrado é frequentemente as notas de um acorde, mais alguns graus de tensão da escala. Todo salto constitui em uma forma quadrada.

Cada uma dessas formas vai funcionar de jeito diferente em cena. A linha, por exemplo, dá idéia de pressentimento, antecipação de algo que está pra acontecer. Ou quando queremos reforçar o texto falado, quando a emotividade é bem pouca ou nenhuma. O círculo é naturalmente associado ao romance, amor, emoção leve. Também funciona bem com introspecção, melancolia leve e afins. O quadrado é ótimo para tensões, cenas de muita ação e energia ou dramas pesados. Claro que isto é tudo uma generalização baseada em observação do que fizeram ao longo do tempo, mas, como tudo em música, nada é absoluto. Use isto como guia, não como dogmas.

Bom, agora que temos um material já feito (nossa aleatoriedade acima) e sabemos os contornos que queremos, basta traçá-los em cima do material, separar uma (ou mais melodias) e usá-la conforme a situação.

Exemplos:
- Uma cena onde um cara tá armando um assalto a banco com outro, só que este segundo ainda não está muito convencido. Se eu taco esta melodia aqui pelo fim da cena, o espectador vai supor que o cara topou e que vai rolar o assalto. O que usei: https://lh6.googleusercontent.com/-yyjFYn9kPxI/ULRaLo-rCtI/AAAAAAAAAK8 /7dq6cioC8fk/s747/t%25C3%25A9cnica%2520r%25C3%25A1pida%2520linha.png

- Uma cena onde um casal vai se encontrar e trocar um beijo apaixonado, se usar um círculo assim, funciona. O que usei: https://lh3.googleusercontent.com/-g1I-Dtv0PiI/ULRaK5hzCEI/AAAAAAAAAKw /reu3syst7HQ/s747/t%25C3%25A9cnica%2520r%25C3%25A1pida%2520c%25C3%25AD rculo.png

E por aí continua. Dá pra tirar zilhões de exemplos só desses 8 acordes aí. É legal, como exercício, vocês tentarem o mesmo. Percebam que aqui eu já escolhi ritmos que encaixem com a minha proposta e que alterei a harmonia para caber na tonalidade que escolhi no 2º exemplo, ré menor. Esta é a regra de ouro: a melodia é quem manda. A harmonia SEMPRE vai estar subordinada à melodia. Ou seja, pega a melodia e harmoniza, não o inverso.

Agora, vamos falar duma técnica de harmonização onipresente no cinema, a harmonização pela mediante. Era uma técnica de harmonização tradicional, muito usada no final do Romantismo, início do Modernismo, para lidar com modulações “itinerantes” ou para se firmar uma “tonalidade não diatônica”. O exemplo crasso disso é “Marte – o que traz a guerra” de Gustav Holst:


Esta música aí serviu de inspiração pra TODAS as cenas de ação dos filmes de 70 pra cá. Perceba o ritmo, a instrumentação, o jeito que a harmonia progride, o estilo percussivo do ostinato... é muito fácil usar isso, é uma música muito descritiva, então USEM. Dá pra variar este ritmo do acompanhamento duma forma que chega no Metallica (“One”, parte rápida), por exemplo. Além de Holst, usem Wagner, Stravinsky, Saint-Saëns...
Aqui está a partitura ( IMSLP ). Percebam como os acordes progridem. Eles sobem majoritariamente por intervalos de 3 graus – ou seja, pela mediante.

É simples, fácil de fazer e muito efetivo. Hans Zimmer é mestre nisso, praticamente usa a mesma progressão em todos os filmes que faz, com um ostinato levemente diferente sempre.

Vamos pegar meu exemplo aí da técnica acima, eu quis fazer o romântico em ré menor, certo? Então, agora vou fazer uma tensão em ré menor. Não preciso nem escrever a partitura pra vocês sacarem, de tão simples e genial que é. Toquem os acordes, se quiserem! Começo em ré menor com um ostinato. Quem é a terça de ré? Fá! Então posso ir para fá maior, fá menor, fá# maior ou fá# menor . Macete: a 3ª pode ser maior ou menor na prática, mas eu costumo sempre usar a da tonalidade original de onde parti. Quanto mais distante um campo harmônico de outro, maior o choque. Por isso, prefiro manter a mediante da escala de pmde parto porque faço as mudanças de tensão pela harmonia (maior ou menor).

Então decidimos que vamos pra Fá. Agora, menor ou maior? Outro macete: quero “escurecer” ou “clarear” a harmonia? Lembram daquele clichê basicão de menor triste/maior alegre? A MESMA COISA AQUI. Então escolho escurecer, vou pra Fá menor. ( Dm -> Fm)
Vou clarear um pouco as coisas agora, vou para Láb Maior, e depois para Dó Maior. (Dm -> Fm -> Ab -> C). Tá tudo muito bonitinho, escurecer de novo! Mi menor, depois Sol menor (Dm -> Fm -> Ab -> C -> Em -> Gm). Clarear de novo pra criar um contraste, então agora vamos para Sib Maior (Dm -> Fm -> Ab -> C -> Em -> Gm - Bb).

E agora, qual a próxima? RÉ DE NOVO! Viu que pulo do gato é essa parada? Agora escolho terminar em Ré maior só pra ficar alegrinho o final, então temos a seguinte progressão, senhores: Dm –> Fm –> Ab –> C –> Em –> Gm –> Bb –> D. Olha como soa num arpejador bobo: http://www.4shared.com/mp3/lOZ1szJN/Progresso_pela_mediante.html

Hans Zimmer usa muito esta progressão partindo de ré menor também. Às vezes, para encurtar e caber na cena, você come algum pedaço e continua. Por exemplo, do Fm eu poderia saltar uma 4ª e ir pro Bb e seguir dali pro D pra fechar. É uma técnica muito legal e muito flexível!

Experimentem harmonizar alguma música de vocês assim pra ver como soa!


Próxima discussão (acho que vou abrir um novo tópico): construindo tensões e harmonia acústica.

waltercruz
Veterano
# nov/12
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Caramba! que aula do Ken Himura! To de cara!

Adler3x3
Veterano
# nov/12
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ken kimura

Muito bom, você caprichou.
Que bom exemplo de dedicação para o fórum.
Mas temos que ter cuidado para não nos dispersarmos na escolha do título dos tópicos.
Todos os posts deste tópico estão num nível muito bom.
Não seria melhor abrir um tópico com um título melhor e colar parte do material já postado? retirando os comentários simples sem exposição de técnicas, pois tudo se completa.
Ou até manter este tópico, que não tem o título ideal mas esta bem ativo e atrativo.

Adler3x3
Veterano
# nov/12
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Som de filmes

Acredito que na música de filmes se utilizam mais os instrumentos de orquestra, mas isto não é uma regra geral.
Então primeiro temos que definir ou até dar um título melhor do que "som de filmes".
Acontece que nos últimos anos a indústria de software disponibilizou samplers de alta qualidade para os instrumentos de orquestra..
No passado as gravações eram 100% feitas com orquestras de verdade.
Mas parece que tudo mudou.
Só que na minha opinião os instrumentos virtuais ganharam um peso sonoro, que uma orquestra de verdade não tem.
Isto ocorre pelo uso excessivo de reverbs , compressores e outros efeitos.
Então qual seria o termo correto para definir esta nova instrumentação?
Parece um novo estilo, músicas do estilo Épico proliferam.
Só que estão usando muitos efeitos, e o som parece soar bem, mas na verdade não esta nada natural.
E o som clássico fica na forma de visualização da onda parecendo um tijolo, e parece que até este estilo entrou na guerra do som alto.
Se você escutar uma sessão de 20 minutos deste tipo de música vai ficar com fadiga auditiva em pouco tempo.
Pode experimentar, faça download e fique escutando por mais de 20 minutos.
E se a música causa isto é sinal que algo esta errado.
Não estou afirmando que são todas as músicas, mas a maioria, principalmente os utilizados pelos softwares ditos "hollywoodianos", que oferecem instrumentos que não soam natural, tem uma força que os instrumentos de verdade não tem.
E a dinâmica da música perde muito.
Este novo som hollywoodiano parece que recebeu também uma certa influência das trilhas sonoras de games.
E estes software parecem bons , mas no contexto de uma orquestra virtual não são.
É o som de Violoncellos com um peso desproporcional, percussão exagerada e outros efeito tipo de batalha..
Trata-se na verdade de um novo estilo propiciado pelos softwares, que parece seguir certos padrões da música clássica, mas é diferente.
E assim temos algo de novo.
Como se adaptar a este nova situação?
Como evitar que o som fique mascarado e não cause fadiga auditiva?

waltercruz
Veterano
# nov/12
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Citando um diálogo conhecido de todo mundo, quantos de nós ainda tem uma idéia do que soa uma orquestra REAL?

Tank: Prontinho amigo. Desjejum de campeão.
Mouse: Se fechar os olhos, vai perceber que está comendo ovos.
Apoc: Ou uma tigela de catarro.
Mouse: Sabe o que isso me lembra? Trigo gostoso, você já comeu trigo gostoso?
Switch: Não, mas tecnicamente nem você.
Mouse: Mas é isto que falo tecnicamente. Porque você se pergunta, como as máquinas sabem qual era o sabor do trigo gostoso? Elas podem ter errado. Talvez o verdadeiro trigo gostoso, tivesse gosto de aveia ou atum. Você fica se perguntando: frango, por exemplo. Talvez elas não soubessem o gosto do frango, por isso talvez o frango tenha qualquer gosto. E talvez ela...
Apoc: Cale-se.


Edson Caetano
Veterano
# nov/12
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waltercruz
Esse dialogo foi fácil mesmo sacar hehe, Matrix é muito massa

Ken Himura
Parabêns, agora lendo com calma para absorver melhor o material

Ken Himura
Veterano
# nov/12
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Adler3x3
É, este é um problema mesmo. Com o advento dos softwares, muitos começaram a usá-lo e perdeu-se o "controle" em busca do som "épico". Por isso essas músicas são tão porradas. Mas aí, temos que ver o que os grandes fazem e tentar copiar a sonoridade.

Muitas dessas coleção de software são assim pra imitar o som que alguns orquestradores top criavam para as trilhas até antes de existirem todos esses samples e loops. Scott Smalley, por exemplo, desenvolveu um conceito de orquestração que ele chama de Z-Clef, que serve pra acentuar as tensões e, ao mesmo tempo, atingir um bom equilíbrio e mistura entre os timbres. Aí os caras tentaram produzir estes sons direto do software, porque é o som que todos queriam.

O importante é saber como queremos a música pra entender os timbres que queremos. Abrir o vídeo na DAW e ir marcando os pontos de tensão musical na cena. Daí, é só pensar a orquestração.

Daí, tem cenas que a porrada tem que vir mesmo, por isso que é comum gravarem 12, 16, 20 trompas! E depois completar, se precisar, com mais alguma virtual. E se grava essas trompas todas juntas, não individualmente, porque o importante é a pressão, a ambiência, não a linha melódica em si.

Pra evitar a fadiga, o som deve ter contrastes. E, de preferência ser misto: boa parte gravada com músicos de verdade, e depois "completada" pelo computador - tipo o que fazem Hans Zimmer (e todos os compositores da empresa dele) e John Williams por exemplo.

Vou tentar entender as técnicas do Smalley pra assimilar no meu trabalho, já que não tenho $ pra fazer o curso dele ainda (nem o online) e acredito que boa parte é coisa que eu já sei mas não presto atenção.

Pra quem quiser tentar:
http://www.filmmusicinstitute.com/fmi2110-2120.html

Ken Himura
Veterano
# nov/12
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Edson Caetano, waltercruz, Adler3x3

Obrigado amigos! =D
Tento passar esses conceitos pra galera ver que composição não é um bicho de sete cabeças assim quanto parece hehehe. Abordo isso nas aulas que dou também.

Tentem fazer alguma música assim e postem depois, quero ver os resultados! Tô sequenciando uma minha minimalista que usa isto aí. Fiz para um exercício dum curso que faço, com o vídeo duma bailarina dançando, tirado de um filme, mas ficou tão boa a música que peguei e tô reorquestrando fora do vídeo, com mais liberdade. Vou postar quando aprontar, apesar de só ter samples ruins aqui, por enquanto.

makumbator
Veterano
# nov/12 · Editado por: makumbator
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Ken Himura

Belos posts Rodrigo! Parabéns!

Falando em Jerry Goldsmith, esses dias assisti novamente ao Vingador do futuro (Total recall), e pude curtitr mais uma vez essa trilha do mestre:

http://www.youtube.com/watch?v=xjts5DrcdiU&feature=related

depois do filme fiquei procurando no youtube para ouvir novamente!

Ken Himura
Veterano
# nov/12
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makumbator
Valeu, Marcão!

Realmente, o Jerry era um puta compositor. A trilha dele de Alien, de 79, ainda me deixa de cabelo em pé! Era um mestre do ação-suspense.

Inspirado nele, fiz até umas pequenas variações de "Ai Se Eu Te Pego", do Michel Teló, prum trabalho de orquestração. Transformei o hit do Teló numa música de drama que leva pruma cena de ação e vira música de batalha. Ficou bom, na minha opinião hehehe. Penso em expandir mais tarde, e tentar tirá-la um pouco dessa esfera de música audiovisual.

Ken Himura
Veterano
# nov/12
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Esqueci de detalhar uma coisa:

NUNCA NOMEIEM AS CANÇÕES DUMA TRILHA ANTES DA APROVAÇÃO. Isto é importante porque a vasta maioria de nós fica sentimentalmente apegada à obra que cria e, se ela for negada pelo diretor, causa um bloqueio, uma sensação de "odeiam minha arte". Isso diminui muito quando não nomeamos (ou apelidamos) as músicas, dá pra criar um desapego maior.

O grande problema de lidar com trilhas é este: a música é sempre subordinada ao vídeo, à aprovação prévia. Por isso, temos que nos proteger do apego e tentar o máximo que der não nos "apaixonar-mos" pelo que foi feito.

Se, por acaso, algo não for aprovado ou não estiver muito bom, guarde pra uso posterior - vai que vira parte duma música sinfônica mesmo, ou até de outra trilha...

Die Kunst der Fuge
Veterano
# nov/12 · Editado por: Die Kunst der Fuge
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Ken Himura

Adorei seus posts! Espero que continue mandando os segredos aí, mas indo direto ao ponto: Qual o título e o autor do livro? Quero ler, diz ae! =D

Ken Himura
Veterano
# nov/12
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Die Kunst der Fuge
Não tem! hahaah

É um conteúdo completamente autoral, um misto de aulas que tive, documentários que vi e análise de músicas do cinema. É uma briga com a internet pra conseguir partituras de filmes pra dar uma olhada hehehe.

Mas valeu! =D

Mas tem alguns interessantes sobre o tema:
-Robert Robertson - Eisenstein on the audiovisual: montage of music,image and sound
-Peter Lawrence Alexander - Professional Orchestration (é uma coleção de livros que ainda está incompleta, o autor trabalha em cima dos livros clássicos de orquestração e das combinações usadas por mestres do cinema)
-Rebecca Marie Doran Eaton - Unheard Minimalisms: The Functions of the Minimalist Technique in Film Scores
-Marcia Citron - When Opera Meets Film
-Richard Davis - Complete Guide To Film Scoring - este aqui é um livro que enfoca mais na parte industrial da coisa, explica as funções de cada um envolvido num filme, como o é o trabalho, como é a correria, as gravações, mixagens etc. É um livro ótimo porque ele mostra o passo a passo da criação musical, o que o compositor deve saber, como funciona as técnicas de escrever pra diferentes tipos de cenas (abertura, diálogos, créditos, dramas) - e a diferença de compor à mão ou pelo instrumento. É um livro menos "musical", no sentido de técnica de compor, mas engrandecedor mesmo assim.

É capaz de sair muito mais coisa por agora, a academia começou a mostrar um tímido interesse pelo cinema; começaram a pipocar teses sobre isto e tem cursos de música pra audiovisual sendo criados como cursos superiores à parte dos de música tradicional. Já tem pós-graduação (até doutorado!) em música pra filmes... o lance é a gente ter uma chance de acessar estas teses, com certeza tem coisa boa - como essa Unheard Minimalisms, que é uma tese de doutorado que encontrei pela internet.

O lance é este, sempre procurar livros e partituras sobre o cinema mesmo, e assistir sempre que dá o making of, as discussões que o compositor e o time de música tem nesses documentários e afins.

Ken Himura
Veterano
# nov/12
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Dois exemplos da técnica de harmonização pela mediante que citei:



Hans Zimmer. Como disse, olha a progressão aí! Praticamente igual à que fiz lá em cima.




Danny Elfman. É uma dos temas mais premiados do cinema, até hoje só de ouvir eu (e muita gente) lembro do Batman. Tá um pouco disfarçado pelas repetições do motivo, mas dá pra sentir quando a música evolui, ela vai e volta pela mediante.

Agora, quando digo que os prazos são curtos e que nego se copia direto, digo que é na cara de pau mesmo. Vejam só:


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