O cerebro treinado dos músicos

    Autor Mensagem
    Juliano de Oliveira
    Veterano
    # abr/05


    O que faz de alguém um violinista virtuoso? Talento e anos de prática à parte, uma coisa é certa: a diferença entre o concertista e aqueles estudantes que tiram notas arranhadas é uma questão de milímetros. Violinos, ao contrário de violões, não têm marcas no braço indicando onde posicionar os dedos da mão esquerda para obter a nota desejada. E como o braço é muito mais curto, um simples milímetro a mais para lá ou para cá pode significar uma nota menos do que perfeita - e acabar com os sonhos de um lugar de destaque no palco.

    http://www.cerebronosso.bio.br/paginas/musica.html
    Além dos milímetros no braço do instrumento, a sensibilidade para posicionar os dedos corretamente talvez dependa também de milímetros em outro lugar: no cérebro do músico. Ou mais exatamente na região do cérebro que cuida das sensações dos dedos da mão esquerda. Segundo um estudo feito na Alemanha em 1995, essa região do cérebro dos violinistas conta com vários milímetros - e muitos neurônios - a mais para cumprir sua tarefa.
    Thomas Elbert e Edward Taub, dois dos autores do estudo, vêm já há algum tempo investigando como a representação cerebral dos sentidos muda de acordo com o uso dos sentidos, e para colocar suas idéias à prova, nada mais natural do que investigar a representação dos dedos das mãos de violinistas: durante anos e anos de treino, essas pessoas usam as duas mãos de maneira muito diferenciada. Enquanto os dedos da mão direita precisam apenas movimentar o arco mais ou menos rápido e com mais ou menos força, os dedos da mão esquerda devem se movimentar muito mais rapidamente e serem sensíveis o suficiente para se posicionarem com precisão milimétrica. Se o uso faz o cérebro dedicar mais espaço ao que é usado, a predição é simples: com o uso mais intensivo dos dedos da mão esquerda, a sua representação no cérebro dos violinistas deveria ser maior do que a dos dedos da mão direita.
    Como as sensações de cada mão são representadas separadamente no cérebro, aliás em lados opostos do cérebro - mão esquerda no lado direito, mão direita no lado esquerdo -, fica fácil determinar quem é quem na hora de analisar o tamanho das representações no cérebro. Mais fácil ainda quando se conta com um expert na arte de medir a ativação de diferentes partes do cérebro, como Christo Pantev, craque no uso da magnetoencefalografia.
    O nome complicado esconde um princípio simples. Toda atividade no cérebro envolve a geração de correntes elétricas, e ao redor de toda corrente elétrica se forma um campo magnético, que se espalha e atravessa o crânio e a pele com muito mais facilidade do que o campo elétrico do cérebro. Com a ajuda de pequenos sensores posicionados sobre a cabeça, tomando o cuidado de sentar seu voluntário dentro de um quarto de paredes de chumbo para deixar todos os campos magnéticos da cidade do lado de fora, e usando muita matemática, é possível determinar de onde vêm esses campos magnéticos, ou seja, em que local do cérebro ocorre a ativação que lhes dá origem. Além disso, a intensidade do campo magnético medido fornece uma indicação do número de células ativadas: quanto maior o campo magnético num certo ponto, mais células provavelmente o produziram.
    Seis violinistas de uns 25 anos de idade e de sete a 17 anos de experiência com o instrumento participaram do estudo, junto com seis voluntários sem qualquer experiência com instrumentos musicais serviram como referência para comparação. Como o objetivo do estudo era apenas determinar o tamanho da representação sensorial dos dedos no cérebro, a tarefa dos voluntários, violinistas ou não, era muito simples: ficar descansados com os sensores na cabeça dentro da sala chumbada enquanto um aparelhinho tocava de leve em seus dedos. Para simplificar ainda mais, apenas dois dedos de cada mão foram examinados: o mindinho, muito usado pelos violinistas e pouco por qualquer outra pessoa, e o dedão, que no violino serve principalmente de apoio por trás do braço do instrumento, embora também faça pequenos ajustes de posição e pressão.
    Os resultados do estudo são bastante claros: as sensações do dedo mindinho e do dedão da mão esquerda evocam mais atividade no cérebro dos violinistas do que as da mão direita, e também mais do que a mão esquerda no cérebro dos outros voluntários, como se fossem representadas por duas vezes mais neurônios. Além do mais, a representação dos dedos da mão esquerda parece deslocada no cérebro dos violinistas, como se tivesse "crescido" vários milímetros em direção à representação da palma da mão dentro do mapa que o cérebro faz das sensações do corpo - como se o mapa tivesse mudado para acomodar mais neurônios representando os dedos da mão esquerda.
    Como seria de se esperar dada a diferença da utilização, o aumento da representação cerebral é maior para o dedo mindinho dos violinistas, mais treinado, do que para o dedão. Em comparação, a representação da mão direita é semelhante entre violinistas e não-músicos.
    Embora a interpretação favorecida pelos pesquisadores é que o aumento resulta do uso dos dedos da mão esquerda durante o treino com o violino, o problema é que não parece haver nenhuma relação entre o tamanho da representação dos dedos e o tempo de prática semanal com o instrumento na época do estudo. Talvez a diferença esteja no número de horas de prática acumuladas ao longo dos anos, mas isso infelizmente ficou por determinar.
    Um achado interessante, por sinal, é que quanto mais cedo os músicos começaram a tocar em criança - especialmente se foi antes dos dez anos de idade -, maior era a representação no cérebro dos dedos da mão esquerda. Isso poderia resultar tanto da prática quanto de uma maior flexibilidade do cérebro mais jovem - e é possível, em face de tudo o que se conhece sobre as capacidades de reorganização do cérebro, que ambas as coisas aconteçam. De qualquer modo, parece evidente que o aumento da representação no cérebro dos dedos que tocam as cordas do violino está associado de alguma forma com a atividade musical dos instrumentistas.
    Três anos depois, em 1998, Christo Pantev se associou a outro grupo de cientistas para colocar a mesma técnica a serviço da investigação de como o cérebro lida com outra habilidade sensorial treinada nos músicos: a discriminação de sons. Vinte estudantes de piano do Conservatório de Münster, na Alemanha, e outros treze que nunca tocaram um instrumento musical, todos com aproximadamente 25 anos, participaram do novo estudo.
    Desta vez a tarefa era mais divertida: ficar assistindo a desenhos animados na televisão (sem som, claro) ao mesmo tempo que os fones de ouvido tocavam 128 vezes cada uma de quatro notas musicais diferentes, produzidas por um piano ou sintetizadas digitalmente. Enquanto isso, os sensores da magnetoencefalografia registravam o processamento "passivo" dos sons - uma medida da simples reação do cérebro aos sons, sem ser preciso prestar atenção ou processar os sons de alguma maneira, como na música.
    A distribuição das regiões no cérebro que representam os diferentes sons era idêntica em músicos e não-músicos, e nestes, sons de piano ou sintetizados produziam igual ativação cerebral. No cérebro dos músicos, em comparação, a ativação em resposta aos sons do piano era 25% maior do que para os sons sintetizados - como se o cérebro tivesse mais neurônios dedicados a "ouvir" sons de piano, e identificasse automaticamente a diferença.
    Exatamente como no estudo anterior com os violinistas, quanto mais jovens os músicos haviam começado o treinamento musical, maior era a ativação no cérebro com os sons do piano - como se mais anos de prática houvessem promovido uma maior reorganização com a prática. Mas também como no estudo anterior, o aumento foi observado em pessoas que começaram a tocar antes dos 9 anos de idade - como se o cérebro na mais tenra idade fosse ainda mais propenso a modificações.
    Todas essas observações no cérebro dos músicos ilustram um princípio geral de reorganização contínua das representações sensoriais (e motoras) no cérebro, ajustadas de acordo com a demanda tanto em indivíduos jovens como também em adultos. Mas embora pareça evidente, a importância da reorganização para os músicos ainda não foi demonstrada: é realmente a maior representação dos dedos da mão esquerda que os torna mais sensíveis? A maior representação dos sons do piano confere realmente uma maior sensibilidade para identificar - e diferenciar - os sons desse instrumento?
    O que ambos os estudos sugerem é que estudar música em criança influencia o desenvolvimento estrutural das regiões sensoriais do cérebro humano. Mas talvez fazer música não seja o único fator. Os pesquisadores não investigaram a influência de ouvir música desde pequeno. Afinal, quem começa a estudar música cedo, antes dos cinco anos de idade, provavelmente tinha pais interessados ou musicistas, que deviam ouvir ou produzir mais música em casa do que os pais dos estudantes não-músicos do estudo. Certo, tocar piano talvez seja a melhor maneira de educar o cérebro - e não o ouvido, como se diz - para os sons desse instrumento. Mas e se o cérebro também puder aprender só de ouvir esses sons?
    A prática da música certamente educa o cérebro, mas nem toda criança que mal tirou as fraldas terá interesse por um instrumento musical, e é mais provável que forçá-la a tocar acabe de uma vez por todas com qualquer motivação que ela viesse a ter, ao invés de encorajá-la. Se mesmo assim os pais já quiserem ir preparando-a para futuras aulas de música, talvez seja mais sábio - e econômico - investir em boas coleções de CDs. E se isso não surtir o efeito desejado nos filhos, ao menos terá divertido os pais...

    o violista
    Veterano
    # mar/09
    · votar


    Escutar música ayuda ´muito para a comprenção futura do estudante. Em relação ao violino o que diferença o solista dos outros........em realidade eli também erra com os dedos da máo izquerda, o que o diferença e a VELOCIDADE de correção para atingir a afinação perfeita.

      Enviar sua resposta para este assunto
              Tablatura   
      Responder tópico na versão original
       

      Tópicos relacionados a O cerebro treinado dos músicos