Porque a música erudita é tão "renegada" dentro da cultura de massa?

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McBonalds
Veterano
# jul/13 · Editado por: McBonalds
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Ken Himura

Mas a complexidade de Mozart não impede a facilidade da audição (e aceitação) de obras dele.

De certa forma, impede sim. Veja, Mozart pode ser quase unanimidade entre os músicos, mas eu duvido que haja algum leigo que vá preferir ouvir Rondo Alla Turca no seu Mp3 do que um sertanejo universitário, por exemplo. Pode até ouvir uma vez e achar legal, mas dizer que virou fã, difícil.

E Mozart também tem muita coisa xarope, principalmente se tratando de ópera. E na verdade ele nem é tããão complexo assim, comparando com outros compositores até da mesma época. Tanto é que muitas obras dele são o primeiro passo para quem começa a estudar piano.

Quanto à melodia, ela é o "padrão" que o nosso cérebro precisa e busca pra poder processar a carga de informações contidas nas músicas. Quanto mas complexa for a construção da música, mais dificuldades o cérebro tem para achar esse padrão, e maior a probabilidade do sujeito rejeitar a música em questão.

Eu, por exemplo, fui me meter no teatro para ouvir uma sinfonia de Mahler e quase dormi. Aquilo é o caos!...rs

Adler3x3
Veterano
# jul/13 · Editado por: Adler3x3
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McBonalds

Operas.

A Opera é um Drama, que tem Música, Texto e Interpretação dos atores.
Em determinadas partes da opera, fica mais destacado o texto e a atuação dos cantores/atores.
E assim só escutando a música, pode parecer enfadonho, mas nestes momentos a música fica num segundo plano e o texto e o drama feito pelos atores num primeiro plano.
Se a música neste momento de declamação fosse muito atrativa, desviaria a atenção do texto, e ninguém se concentraria na voz, e sim na música.
Assim a opera tem que ser analisada no conjunto.

Complexidade
É muito relativo escrever sobre complexidade.
O simples muitas vezes de tão bem feito pode parecer complexo e vice-versa.
Mozart começou a compor desde tenra idade (se bem me lembro 5 anos), e mesmo estas peças tinham uma complexidade acima do normal.
Muitas músicas que são aprendidas pelos estudantes são versões facilitadas, com acordes mais simples, preparadas e adaptadas pelos professores para ensinar a tocar um instrumento, assim como acontece com muitos outros compositores.
O Ode da Alegria de Beethoven por exemplo qualquer aluno de piano iniciante toca.
Mas toca uma versão ultra simplificada, apenas uma pequena parte da obra.

Cada estilo musical, bem como cada música em particular tem o seu tempo.
A Grande Maioria das músicas de hoje não será lembrada daqui 200 anos.
Assim não dá para comparar uma música atual com uma música antiga, que por sua qualidade é escutada nos dias de hoje.
Mas são dois tempos e dois estilos totalmente diferentes.
O Passado , O Presente e o Futuro.

Ken Himura
Veterano
# jul/13
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McBonalds
Veja, Mozart pode ser quase unanimidade entre os músicos, mas eu duvido que haja algum leigo que vá preferir ouvir Rondo Alla Turca no seu Mp3 do que um sertanejo universitário, por exemplo. Pode até ouvir uma vez e achar legal, mas dizer que virou fã, difícil.
Aí não é questão de preferência puramente, mas de condicionamento e marketing.

Se alguém marketar bem cima disso, vai ter uma legião de seguidores fiéis e dispostos a pagar (bem) pelo seu produto. Exemplo: ANDRÉ RIEU. O cara é um monstro em marketing, e construiu tudo com valsa vienense, um estilo por natureza excludente. Mas veja a paixão cega que ele injeta nas pessoas.

Quanto à melodia, ela é o "padrão" que o nosso cérebro precisa e busca pra poder processar a carga de informações contidas nas músicas. Quanto mas complexa for a construção da música, mais dificuldades o cérebro tem para achar esse padrão, e maior a probabilidade do sujeito rejeitar a música em questão.
Não necessariamente. Tanto que de uns 100 anos pra cá várias correntes musicais nem usam mais melodia nas suas composições, e isso não atrapalha a apreciação - talvez a de alguém condicionado a outros estilos onde a melodia predomine.

E na verdade ele nem é tããão complexo assim, comparando com outros compositores até da mesma época.Tanto é que muitas obras dele são o primeiro passo para quem começa a estudar piano.
Mozart é um dos compositores mais complexos da história da música. O fato de usarem peças dele é pela facilidade de assimilação, não pela facilidade de execução - por sinal, é o pesadelo de muitos músicos tocar Bach e Mozart, ambos por motivos similares: a clareza na exposição das ideias. Até a forma de mão e o jeito de toque é diferente pra tocar Mozart.

E não se engane, Mozart é mais complexo musicalmente que Beethoven, por exemplo. Não vou falar dos outros românticos porque a estética mudou muito, assim como as formas; fica difícil de traçar uma comparação justa entre todos os fatores. Mas em questão de equilíbrio de som, simetria de formas e ideias e ao mesmo tempo facilidade de assimilação, tá pra nascer alguém que se compare a Mozart. E ele morreu há mais de 220 anos.

Em matéria de orquestração, Mozart é complexo demais (fase adulta, claro). Mesmo com esta arte engatinhando na época e tendo recursos timbrísticos limitados, ele cria texturas únicas, que até viraram uma espécie de assinatura - você sabe que é Mozart só de ouvir um acorde. Tem até exemplos do mais tarde Schoenberg desenvolveu e chamou de klangfarbenmelodie (melodia de timbres). Como orquestrador aprendiz, você só vai se meter a estudar Mozart depois de ter uma base bem sólida estudando outros compositores como Mendelssohn, Tchaikovsky, Beethoven, Rimsky-Korsakov... e vai ter que manjar bem de contraponto (dormir com o Gradus ad Parnassum embaixo do travesseiro hahaha!).

makumbator
Veterano
# jul/13
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Ken Himura
Mozart é um dos compositores mais complexos da história da música. O fato de usarem peças dele é pela facilidade de assimilação, não pela facilidade de execução - por sinal, é o pesadelo de muitos músicos tocar Bach e Mozart, ambos por motivos similares: a clareza na exposição das ideias. Até a forma de mão e o jeito de toque é diferente pra tocar Mozart.

Concordo totalmente. Mozart é difícil justamente por ser muito claro, conciso (sem deixar de ser exuberante) e muito musical no desenvolvimento das idéias. Ele te deixa "pelado" ao tocar, justamente por sua "aparente" simplicidade (é como se ele fosse sempre direto ao ponto, na medida, sem os penduricalhos de outros compositores e gêneros). Não tem para onde fugir e se esconder (como em muitos estilos carregados ou rebuscados). Ou você toca bem ou fica bem evidente a inadequação.

Acho um compositor bem difícil de se executar com maestria.

Exemplo: ANDRÉ RIEU. O cara é um monstro em marketing, e construiu tudo com valsa vienense, um estilo por natureza excludente. Mas veja a paixão cega que ele injeta nas pessoas.

O movimento de classical crossover (a la IL Divo) se aproveita um pouco disso também, e com bastante sucesso comercial.

Ken Himura
Veterano
# jul/13
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makumbator
Com certeza.

O que o Rieu fez deveria ser ensinado em todas as faculdades de música do mundo, alguma matéria do tipo "Música & Business" ou "Música e Empreendedorismo". É algo que certamente faria a diferença no nosso ramo e abriria a quantidade de postos de trabalho.

André é um exemplo exatamente por criar um nicho e manter um padrão de qualidade alto - pode-se reclamar de tudo, desde aquelas piadinhas sem graça ao frufru das roupas, mas sua orquestra é de altíssima qualidade musical e dificilmente você vai ouvir algum arranjo ruim. O próprio André dizem que é um violinista muito bom, um dos melhores de sua turma no conservatório em Maastrich, apesar de todo o jogo de marketing. E, convenhamos: quem, em pleno século XXI, seria fã de valsa vienense se não fosse o André Rieu? Claro que elas ainda fariam parte do repertório Clássico - afinal, tem valsas famosas pra cacete - mas moveriam elas as multidões que movem? Senhoras na casa dos 80 anos iriam se locomover por 30km (às vezes mais) só para um "concerto de valsa"?

Puristas da música clássica torcem o nariz (pra variar né...), dizem que é um desserviço à música de concerto e todo aquele mimimi, mas eu vejo por outro lado. No final das contas, ele acaba virando uma espécie de embaixador, uma ponte entre o clássico e o pop.

Outro que faz um trabalho ótimo neste sentido é o David Garrett, que agora parece que tem uma banda + orquestra que o acompanha em shows - só que ele ainda faz concertos tradicionais como solista. Era o esperado para um aluno de pós-graduação do Perlman né? Hehehe...

Tem vários outros nesse "meio" também, mas de forma bastante proeminente só lembro desses dois agora, pelo maior sucesso. Dá pra colocar o UAKTI no meio desse bolo também, por sinal.

Curiosamente, li outro dia desses uma reportagem no Times Higher Education (Inglaterra) exatamente sobre este tema. É uma leitura bem legal: Classical economics and finished symphonies

Adler3x3
Veterano
# jul/13 · Editado por: Adler3x3
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Tempos atrás assisti um documentário sobre o André Rieu.
É uma grande empresa , muito bem organizada com muitos empregados.
Tem uma infraestrutura de apoio magnifica, com muitos empregados e muitos músicos, e extraordinários instrumentos, muitos de época.
Um super estúdio para gravações e ensaios, uma organização fora do comum no meio artístico.
No Brasil e no mundo devem existir poucas empresas com o nível de organização e profissionalismo do André Rieu.
Acho que no Brasil isto não existe, e se existe algo parecido deve ser bem embrionário.

makumbator
Veterano
# jul/13 · Editado por: makumbator
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Adler3x3

Pode crer. E na última turnê aqui no Brasil, todas as noites setavam lotadas (e foram várias em várias cidades), e ainda fizeram apresentações extras por conta da procura. Tudo isso reflexo do sucesso comercial inegável do projeto, muito mais do que boa parte dos músicos "populares" de sucesso do Brasil ou mesmo do exterior que se apresentam no país.

Ken Himura

Eu gostaria de ver um projeto parecido com o do Rieu aqui no Brasil, mas feito em cima do choro (e também aquele repertório "crossover" entre choro e erudito, característico do Rio do século XIX). se a valsa vienense consegue todo esse apelo, imagino que uma apresentação de roda de choro "turbinada" e bem produzida poderia ter algum sucesso comercial.

Ken Himura
Veterano
# jul/13
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makumbator
Monta um! hehehe

sallqantay
Veterano
# ago/13
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Porque a música erudita é tão "renegada" dentro da cultura de massa?

quando a música erudita se propôs a ser cultura de massa?

Quando ela é usada como trilha sonora, passa a ser trilha sonora, e não mais música erudita, é usada para outro fim que não o musical puro.

esse negócio de não colocar nos créditos é coisa bem comum no brazil: tente achar o nome de qualquer instrumentista em um álbum qualquer. Poucos tem essa informação completa.

Thiago Livgren que toca mais ou menos
Membro Novato
# ago/13
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Cultura de Massa... interessante. A cultura de massa não liga para a qualidade musical, e sim para o que faz sucesso. Sem falar que a maiorias das pessoas odeiam músicas complexas ou longas. Também há a possibilidade de não gostarem por ser um estilo antigo. Pode ver que pouca gente hoje em dia ouve Johnny Cash, por exemplo. A cultura de massa é formada por alienados da M.T.V. e do Jornal Nacional, e só curtem "o que está na media"

makumbator
Veterano
# ago/13 · Editado por: makumbator
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sallqantay
esse negócio de não colocar nos créditos é coisa bem comum no brazil: tente achar o nome de qualquer instrumentista em um álbum qualquer. Poucos tem essa informação completa.

Mas em álbuns de música instrumental brasileira é bem comum ter listado todo mundo. A maioria dos discos dessa categoria que tenho aqui são assim. Alguns com listagem detalhada para cada música.

Quando ela é usada como trilha sonora, passa a ser trilha sonora, e não mais música erudita, é usada para outro fim que não o musical puro.

Mas obviamente isso é algo que foge do controle do compositor, e mesmo dos músicos de uma orquestra, maestro, etc... obviamente me refiro a obras que não foram criadas diretamente para ser trilha (e também foram gravadas posteriormente para um lançamento "normal")

Outro ponto é saber o que é uso musical puro. A música no passado distante era absolutamente utilitária (música erudita incluída). E eram feitas para ocasiões específicas (rituais socias e religiosos, e também para fins didáticos), não tendo um uso "puro" e meramente "artístico" como se pensa hoje.

Cultura de Massa... interessante. A cultura de massa não liga para a qualidade musical, e sim para o que faz sucesso.

Mas tenha em mente que a música erudita faz parte da cultura de massa.

d joe hard
Veterano
# ago/13
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(me metendo)Bem,eu acho que a questão é muito mais de 'Qual cultura de massa" do que "se é ou não é" veja bem...(perdão,eu vou escrever pra caramba,hehe)
Traçando o histórico da música erudita com o histórico da cultura de massa,podemos analisar que,por concepção científica atual,a cultura de massa surgiu BEEEEEM depois da música erudita(e isso pode parecer insignificante,mas não é).
aí você pode perguntar,AAAH MAS E VIENA?GERAAL IA DE BOAS LÁ ASSISTIR MOZART E SALIERI!GERAL CONHECE.
bem,isso não era necessariamente cultura de massa,as retratações que nos chegam aos dias de hoje tem muito a ver com os esteriótipos,e pra cada pessoa que ia ver A Flauta Mágica "em cartaz" (imagina só,que legal) outras 10 trabalhavam no campo...
tá,mas e daí?
e daí que BAM!REV. INDUSTRIAL o mundo sai dos campos pra ir as fábricas,a sociedade toda passa a se organizar no que hoje é a lógica contemporânea...aí começa a se delinear a cultura de massa,e a música erudita passou sim a esse modelo,chegou a tal por que as pessoas que são responsáveis por isso eram aquelas que estavam sentadas assistindo Don Giovanni...a M.E. passou ao postulado da cultura de massa...
e cultura de massa é aquela difundida pelos meios de comunicação em massa...os palcos vienenses (por mais que gente do <<povão>> fosse assistir a [/i]as bodas de Fígaro[i] não era meio de comunicação em massa)
a sociedade capitalista é pautada no consumo,E o que você pode produzir pra ser consumido? (cultura-cultura de massa-música-música erudita)
até metade do Séc XX a música erudita era [/i]mainstream[i] sim,seus avós conhecem o bolero de Ravel(dando o exemplo mais ralo)E mais que isso,sempre tem um \claro que conheço!
porém,após duas guerras mundiais,bombas atômicas,bipolaridade mundial e etc. o capitalismo(sempre muito volátil) passou a sofrer transformações...foi o tempo da [/i]Beat Generation[i] e dos movimentos de contracultura,foi aí que a cultura de massa sofreu uma importante transformação...foi ao plural, as culturas de massa(tal como no toyotismo) passaram a ser mais personalizadas(o que por exemplo,explica o advento da tribo urbana).
nesse sentido a música erudita já tinha experimentado queda na popularidade,principalmente por que as "febres" eram os ritmos musicais urbanos,como o Jazz o Blues e mais tarde...o Rock N' Roll,a música erudita que tinha ficado a humanidade como uma de suas relíquias,se via mais distante do povo e mais presa a certos círculos sociais (por exemplo,vc acha que um saxofonista de Nova orleans conhecia bach?)
Dãã,claro que conhecia,kkk' mas traçando um panorama atual,será que os Mc's do Funk conhecem?
isso é fruto da retirada da música erudita do Mainstream .

d joe hard
Veterano
# ago/13
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Mas e aí que eu volto a minha pergunta...Qual cultura de massa?
bem,por exemplo,meu pai tem Cd's do Andrea Bocelli(sou fã) e do Vangelis(sou fã demaaais) a maior parte da classe média(um dos focos principais das culturas de massa) conhecia o Luciano Pavarotti,e Andre Rieu,nem preciso falar né?vcs já falaram tudo..o cara é genial no que faz(música,marketing,etc)
mas a verdade é que de um jeito ou de outro,a música erudita está presa a um segmento da sociedade,o segmento que a consome,se é um círculo social restrito eu não sei,mas com certeza essa música passa pelos cursos da cultura de massa(ah então oq q não passa?...bem,o trovadorismo,talvez,sacanagem né?rs')
Casos como o de Andre Rieu estão se tornando cada vez mais raros...a música erudita está fechando o seus ciclos(não se esqueçam da palavra - erudita- ) mas é,não podemos dizer que a música erudita não passe pela cultura de massa,a questão é que hoje a cultura de massa são vários rios(como veias) e não tem um só. mas a cultura de massa,quando pautada no consumo,sempre vai valorizar a música de "onda" da "moda" sempre,é a lei do consumo(não vou nem entrar na discussão do -é supérfluo ou não- senão ñ acabo nunca) isso é que resta de Mainstream,no geral está tudo tão ramificado...
mas não vamos ficar tristes só pq hj em dia boa parte do mundo não escuta Paganini,essa questão é profunda demais,hahah'

sallqantay
Veterano
# ago/13 · Editado por: sallqantay
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d joe hard
makumbator
Mas em álbuns de música instrumental brasileira é bem comum ter listado todo mundo. A maioria dos discos dessa categoria que tenho aqui são assim. Alguns com listagem detalhada para cada música.

raridade

Mas tenha em mente que a música erudita faz parte da cultura de massa.

de uma parte (pequena) da massa que se dispõe a ouvir. É um projeto elitista e sempre foi, mesmo com a educação em massa que seguiu a revolução industrial.

Pegue a literatura: quantos leem borges ou proust? Poucos, mesmo sendo tão barato quanto paulo coelho, mas exige mais do leitor em termos de referências/vocabulário/pedantismo.

A música no passado distante era absolutamente utilitária

o projeto de música erudita vai contra qualquer utilitarismo da arte primitiva.

makumbator
Veterano
# ago/13
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sallqantay

A cultura de massa não é só o que é ultra popular. Ela abocanha com prazer o que também é relegado a nichos (como a música erudita). Mozart também é cultura de massa (e como é!), assim como a Madonna.


raridade

Dentro da minha grande coleção não é raridade não. Mas tudo bem que minha amostra é pequena em relação ao todo.

o projeto de música erudita vai contra qualquer utilitarismo da arte primitiva.

Não estou falando de música primitiva. Mas de música do séc XVIII (por exemplo), que era em sua imensa maioria utilitária, e destinada a certos rituais e acontecimentos sociais, não sendo descolada da vida da comunidade. Essa coisa de música pela música (arte pela arte) é relativamente recente na música erudita. Isso começou a ficar mais forte a partir do séc XIX. Mas definitivamente não era a prática corrente até início do séc XIX.

Ken Himura
Veterano
# set/13
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sallqantay
de uma parte (pequena) da massa que se dispõe a ouvir. É um projeto elitista e sempre foi, mesmo com a educação em massa que seguiu a revolução industrial.
"A Flauta Mágica", de Mozart, estreou num teatro de ralé na periferia de Viena. Era tipo aqueles teatros nossos de hoje em dia nos quais pagamos uns 5 reais (a inteira) pra assistir à peça, com atores geralmente amadores ou bem novos no cenário profissional. Imagine agora uma ópera (com todo o corpo musical que é necessário) assim ser um sucesso estrondoso de bilheteria.

Schubert e Satie tocavam piano em casas de chá/cafeterias. Villa Lobos vivia na Confeitaria Colombo (se conhece o centro do Rio, já ouviu falar ou já esteve lá) tocando piano - suas próprias músicas, que muita gente até hoje torce o nariz por ser de "difícil assimilação". Paganini fez inúmeros recitais gratuitos (muitos eram até beneficentes) por quase toda a vida em igrejas, antes ou depois de missas. A bateria da Unidos da Tijuca tocou Mozart com o Isaac Karabtchevsky.

Se você diz que isso é ser elitista, qualquer projeto artístico até meados do séc. XIX, então, foi pensado como elitista. Mesmo por aqueles artistas que emergiram no seio do povo e apresentaram muitas de suas obras fora dos palcos da nobreza.

Este é o problema/estigma que o nome "erudito" carrega. O que era pra significar apenas "mais erudição" ou "que tem uma carga reflexiva maior, mais base escrita (a escrita musical tem um papel fundamental nessa erudição), maior polimento" virou "que é esnobe pra caralho".

makumbator
Veterano
# set/13
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Ken Himura

Pois é,

Bach já compôs uma cantata para ser executada em um café, contando a simplicidade das delícias dessa bebida. Quer coisa mais prosaica que isso?

O local ainda existe, e ainda é um café!

http://www.kaffeehaus-zimmermann.de/kaffeeshop.php

Bach inclusive teve durante um certo tempo apenas orquestras "amadoras" á disposição, com gente comum.

Vivaldi compôs muitas obras para a orquestra de orfãs de onde trabalhava. É como se hoje um compositor importante levasse suas obras para serem gravadas por uma ONG de crianças abandonadas.

Este é o problema/estigma que o nome "erudito" carrega. O que era pra significar apenas "mais erudição" ou "que tem uma carga reflexiva maior, mais base escrita (a escrita musical tem um papel fundamental nessa erudição), maior polimento" virou "que é esnobe pra caralho".

Eu acho o termo "erudito" péssimo por causa disso. Carrega toda uma simbologia que nem sempre corresponde à realidade.

d joe hard
Veterano
# set/13 · Editado por: d joe hard
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Pois é...
por isso eu costumo a dizer...o nome é música erudita pelo compositor...e não pelo público...
pq o compositor realmente tem que ter um certo estudo pra desenvolver seu trabalho...mas isso não significa absolutamente nada ao público,na minha opinião,a música erudita é pra todos os ouvidos,não precisa ter "ouvido absoluto" pra apreciar boa música...a música tá aí pra a humanidade inteira desfrutar...
isso é até uma discussão curiosa na minha faculdade(faço história) eu acho ridículo os autores "eruditos" negarem o grande público e focarem seus livros apenas em um círculo fechado,entendo que é "ciência" e aí sim vc precisa de certa bagagem pra acompanhar,mas mesmo assim...na minha opinião pelo menos a maioria dos livros devem ser escritos tanto para os cientistas quanto para o grande público....que dirá música...que pode ser apenas apreciação
pense bem,que mentalidade de merda seria "vamos compor uma música mto bela,mas não vamos deixar ninguém ouvir"

Adler3x3
Veterano
# set/13 · Editado por: Adler3x3
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A música erudita não é fácil de definir.
Assim como a erudição na cultura em geral.
Erudição esta ligada ao conhecimento, a sabedoria e ao nível ou grau de dificuldade do estudo.
Só que cada ser humano é diferente do outro.
Assim existem níveis e níveis de erudição.
E a própria erudição contempla coisas simples.
Num determinado grupo uma pessoa pode ser considerada erudita.
Num outro grupo mais avançado esta mesma pessoa pode ser considerada um inculto.
Assim na música erudita também existem músicas simples.
A erudição sempre busca o aperfeiçoamento.

E na música o mais importante é estar receptivo, e existem níveis diferentes de audição.
A pessoa pode ser mais simples, mas pode ter um poder maior de assimilação auditiva/musical do que uma outra considerada erudita somente na acepção do termo.
Assim o termo erudito, não pode ser colocado como uma barreira ou como um empecilho para a inserção das pessoas.
Erudito! Sim!
Nivelar por cima! Sim!
Os que sabem mais ensinam os que sabem menos.
E assim o nível vai se elevando.
Mas quem ensina tem que saber descer para poder ensinar bem.
Os problemas decorrem da vaidade humana em se achar melhor que os outros. e querer se isolar , ou não se colocar no mesmo nível dos outros.
E não querer ensinar e se mostrar superior aos outros.
Só ter o conhecimento e parecer ser erudito não significa nada.
No nível humano onde independente do conhecimento de cada um somos iguais nos direitos e nas obrigações.
E não faz sentido um erudito não querer se entender pelos outros de menos conhecimento.
Isto não é erudição, pois na base de sua formação falta o essencial.
Que é o do saber compartilhar, sem ter receio de que ao ensinar o aprendiz, no futuro o aprendiz pode ficar melhor que o mestre.
Para uma pessoa erudita transmitir a sua erudição, tem que saber se comunicar, isto é saber usar a linguagem do que sabe menos, e a medida que vai ensinando, vai aumentando o nível.
Se o erudito esquece de usar a linguagem mais simples deixa de ser erudito, pois o conhecimento é cumulativo.
Assim na evolução cada geração fica melhor que a anterior.
Aquele que não sabe nada, tem direito de aprender.
Aquele que sabe mais, tem a obrigação de ensinar.
E sempre vai existir uma pessoa mais sábia, assim o verdadeiro sábio é aquele que conhece as suas limitações.
E para ser sábio uma das primeiras virtudes que tem que se dominar é a humildade.
Sem humildade não existe sabedoria.
Esnobar os outros tentando demonstrar erudição é o erro mais comum.

sallqantay
Veterano
# set/13
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Ken Himura
makumbator

eu não usei elitista no sentido de esnobe. A maioria das pessoas naquela época não sabiam nem ler ou escrever, quanto mais ler uma partitura

periferia de Viena
casas de chá/cafeterias
Confeitaria Colombo

é bom lembrar que nessa época a maioria esmagadora vivia no campo, e que a cidade já era, de certa forma, um espaço de elite

Adler3x3
Veterano
# set/13 · Editado por: Adler3x3
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é bom lembrar que nessa época a maioria esmagadora vivia no campo, e que a cidade já era, de certa forma, um espaço de elite

Penso que no Brasil a palavra "elite" foi desvirtuada e ganhou um cunho ideológico perigoso.

Onde o poder político e financeiro é confundido com elite.
Basta verificar a relação de "imortais" na Academia Brasileira de Letras" e outros órgãos.

Feliz é o país que tem uma elite de verdade.

E país civilizado é aquele que é formado por pequenas cidades e tem a população melhor distribuída, e os serviços públicos são bons, assim como a cultura que é cultivada e preservada.

As nossas capitais são uma excrescência resultante da falta de planejamento urbano e rural, constituindo uma forma insana de viver.
As nossas pequenas cidades são desvalorizadas, tudo fica concentrado nas capitais.

Ken Himura
Veterano
# set/13
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sallqantay
é bom lembrar que nessa época a maioria esmagadora vivia no campo, e que a cidade já era, de certa forma, um espaço de elite
Não senhor! Periferia é periferia, seja campo ou cidade. Pessoas que mal tinham o que comer, viviam imundas e bêbadas de vinho barato e você chama isto de "elite" ?

Fora que Séc. XIX a Europa já era mercantilizada e tava ocorrendo a revolução industrial, muita gente já morava nas periferias trabalhando como operários.

sallqantay
Veterano
# set/13
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Ken Himura

era pouca gente, nada que desse para qualificar como massa (fenômeno muito recente)

Ken Himura
Veterano
# set/13
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sallqantay
era pouca gente, nada que desse para qualificar como massa (fenômeno muito recente)

Duvido. Pegue em números relativos (porcentagens), não em absolutos. O que é recente é a indústria de massas, cultural, midiática etc. Pobre nunca foi elite em lugar nenhum.

sallqantay
Veterano
# set/13
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Ken Himura

nascemos imersos na cultura de massa, o rolê erudito era outro e talvez seja inacessível para nós. O que eu quero dizer é que a parada é outro universo, que funciona com outra lógica

exemplo: é impossível transmitir música erudita pelo rádio. A sua variação dinâmica é muito grande, o som de um violino soando no meio de uma orquestra de 100 integrantes se confunde com a estática de base do rádio.

Ken Himura
Veterano
# set/13
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sallqantay
exemplo: é impossível transmitir música erudita pelo rádio. A sua variação dinâmica é muito grande, o som de um violino soando no meio de uma orquestra de 100 integrantes se confunde com a estática de base do rádio.
As rádios MEC FM, BBC, Deutsche Welle, e Nederland discordam veementemente de você.

sallqantay
Veterano
# out/13
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Ken Himura

elas estão tecnicamente e objetivamente erradas, a razão sinal/ruído de um pianíssimo é péssima, dá até para desconsiderar como música in limite

para entender a ruptura que houve depois da industrialização e da massificação, é só ler Adorno. Aquele é o relato de uma pessoa criada na tradição erudita que chega na sociedade de massas e não entende porra nenhuma, e fica tentando em vão enfiar os seus conceitos naquilo que não funciona daquele modo

makumbator
Veterano
# out/13
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sallqantay
elas estão tecnicamente e objetivamente erradas, a razão sinal/ruído de um pianíssimo é péssima, dá até para desconsiderar como música in limite

Mas a ideia não é transmitir a música em toda sua beleza e perfeição técnica (ademais, nem ao vivo se tem tal perfeição, uma vez que muitas salas são acusticamente ruins, sem contar intromissões do público, de agentes externos, etc...). Acho que nada disso impede a exibição da música, pois é muito preciosismo exigir uma condição ideal, que na prática nem existe (e varia bastante de cada período musical.

Inclusive a própria estética da orquestra romântica é estranha ao período clássico (por exemplo). Todo esse gigantismo das orquestras não existia anteriormente, então tocar um violino em uma orquestra de 100 integrantes, em afinação com padrão alto, dentro de uma sala imensa também é algo recente, e fora da estética de um passado mais remoto (então tocar Mozart assim, como já se fazia na metade do séc XIX, já é algo fora da intenção original do compositor).

No fim das contas, cada período toca a música de seu tempo e a do passado dentro da ótica em que é executada, mesmo querendo ao máximo respeitar as práticas de época (como nas exibições "historicamente informadas").

para entender a ruptura que houve depois da industrialização e da massificação, é só ler Adorno. Aquele é o relato de uma pessoa criada na tradição erudita que chega na sociedade de massas e não entende porra nenhuma,

Sim, até pelo fato dele ter sido também um estudioso de música e composição. Entretanto a gente não vem do mesmo background que ele (uma vez que já nascemos totalmente imersos na cultura de massa, ao contrário de pessoas do período de transição).

Mas é importante ressaltar que muitas das práticas musicais que ele mesmo defendia não eram originais do período de várias composições tocadas em sua época. Seu entendimento do jazz também é bastante desinformado (ao contrário de quando trata da música erudita), e hoje seus escritos sobre o tema são de certa forma musicalmente obsoletos.

nascemos imersos na cultura de massa, o rolê erudito era outro e talvez seja inacessível para nós. O que eu quero dizer é que a parada é outro universo, que funciona com outra lógica

É inacessível pois realmente somos de outra era, mas isso não impede a prática e apreciação da música do passado. Concordo que não existe maneira de se escutar música barroca (por exemplo) com os "ouvidos" do séc XVIII, pois não temos a mesma cultura daquela época. Mas o importante (e possível) é ouvir com nossa cultura atual mesmo.

Mas e isso importa tanto assim? Fazemos a apreciação com nossos ouvidos contemporâneos, e essa música acaba tento um significado diferente da época em que foi criada, mas nada disso me incomoda.

sallqantay
Veterano
# out/13
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makumbator
Mas e isso importa tanto assim?

é só importante lembrar para não fazer confusões e virar um Adorno da vida.

no mais o que você escreveu é isso mesmo, concordo. O importante é ouvir

Ken Himura
Veterano
# out/13
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makumbator
sallqantay
é só ler Adorno
Nem me falem desse cara, hahaha! Tô lendo um livro dele pra prova de mestrado que vou fazer.

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