A música erudita morreu?

Autor Mensagem
J. S. Coltrane
Veterano
# dez/07 · Editado por: J. S. Coltrane


Essa discussão veio do tópico 'Partitura de músicos contemporaneos'. Achei que seria interessante um post só para esse assunto.

"A arte morreu, não consuma o seu cadáver" [Pixo de Maio de 68]

O capitalismo é anti-estético [não que ele não possa ser bonitinho] pois a mercadoria não pode fazer exigências como os conhecimentos de música [ou arte]. Vocês dirão que arte não é mercadoria e eu perguntarei o que não é mercadoria. Ou suporte delas? A arte erudita é possível no capitalismo? O projeto da vanguarda, se não morreu, está velho.

Se a música vai virar mercadoria, ela tem que ser de fácil assimilação, não pode fazer exigências do ouvinte como a música erudita, sacou?
Isso coloca ela em um beco sem saída e não cria novos padrões estéticos, como tínhamos anteriormente [romantismo, barroco]. O que temos é cada compositor falando para poucos, ou só para ele mesmo.

Ainda restam duas perguntas:
A música erudita é possível no capitalismo atual?
O projeto da vanguarda ainda tem algo a fazer? O que vem depois do moderno? O 'reino da qualquer coisa' como querem alguns?
A técnica se esgotou?

Rodrigo_Iron colocou:

Eu acho que a música tem que despertar algo no homem, alguma emoção, prazer, etc.
Agora musicas como "4:33" trazem o que para o homem?
Pra mim é o cumulo isso, por isso é necessário ver até onde vai essa "inovação" da música moderna, não podemos fugir da proposta sobre o que é música.
Qual o valor musical dessa obra?!Pra mim certamente nenhum.


fã de mp3:

A música erudita sempre foi pra poucos, creio.
A música do séc. XX não ficou velha. Nós é que ficamos.

Tekila
Veterano
# dez/07
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"A arte erudita é possível no capitalismo?"

claro. Alias nunca se produziu tanta música erudita como nos tempos de hoje, hoje em dia temos orquestras em cidades pequenas como Bragança , conservatórios respeitaveis como os de Tatuí e importantes festivais como o de Campos do Jordão. e olha que o Brasil é um país "iniciante" na música erudita

pra você ter noção, na CHina formam-se por ano. 20.000 Pianistas em média. Hoje temos gravadoras unicamente para música erudita como a deustchland gramophone. Vivemos numa época onde a musica erudita está mais presente do que nunca, basta abrir os olhos.

"O projeto da vanguarda ainda tem algo a fazer?" essa é um dos grandes problemas atuais, pois tudo é arte, vivemos numa época de busca por novas estéticas, veja a musica eletroacústica

"Agora musicas como "4:33" trazem o que para o homem?"
a música não precisa despertar apenas sentimentos bons. se despertou algo em voce (no caso a revolta) entao John Cage conseguiu o que queria

"Qual o valor musical dessa obra?!" eu te pergunto entao, qual o valor do movimento dadaísta?

ambos vistos fora de contexto na fazem sentido, entao estude a obra de Cage e veja por que ele fez isso. criticar sem saber é muito simples

J. S. Coltrane
Veterano
# dez/07
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Tekila

Essa produção nova de música erudita apresenta compositores modernos ou contemporâneos? Ou será que ela executa somente obras pré-século XX?

Estudar música para apreciá-la? Quantas pessoas fazem isso?

Sem dúvida a deustchland gramophone está aí [mesmo que seja 1% do mercado]. Mas qual o sentido de gravar música erudita se o público é pequeno e visto como elitizado? Seria o mesmo que gravar discursos do Mao, ninguém entenderia.

Jabijirous
Veterano
# dez/07
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é, comprado com uma ivete sangalo, sim nós temos poucos ouvintes, mas ó, tem dias que o teatro municipal do RJ ta LOTADO, a bienal tb teve bastante gente!! acho que com esse projeto aprovado de musica nas escolas, derrepente a cultura musical deve ser um pouco mais elevada!

Dogs2
Veterano
# dez/07
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O capitalismo é anti-estético

eu discordo mas não vou mudar o foco da discussão

Atum Bluesman
Veterano
# dez/07
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O ponto é, sobram músicos e faltam compositores, isso não só na música erudita.

makumbator
Veterano
# dez/07 · Editado por: makumbator
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J. S. Coltrane

Sem dúvida a deustchland gramophone está aí [mesmo que seja 1% do mercado]. Mas qual o sentido de gravar música erudita se o público é pequeno e visto como elitizado?

Se assim fosse, a Ferrari não fabricaria seus carros, uma vez que uma parcela diminuta do mundo tem condições de comprar o carro mais barato da marca. Muitas marcas buscam o consumidor classe A, e não ligam se são apenas 1%, pois esse 1% detêm quase todo a riqueza, então é um ótimo negócio. Não quero dizer que música erudita é coisa para milionários, a Ferrari foi apenas um exemplo sobre mercado, nada mais! Um porteiro semi-analfabeto do meu prédio(que mora em uma quitinete) ama ópera, e conhece TUDO do assunto, tem quilos de fitas K7 com as obras(é o que ele pode pagar, inclusive já gravei todas que tinha para ele, e ele gravou para mim muitas também!). Esse homem conversaria de igual para igual com qualquer crítico especializado em ópera.
Por acaso vc já viu cd clássico em camelô pirata? Não existe! Pois esse público normalmente prefere a melhor qualidade de um CD ou DVD original(sem a compressão degeneradora de mp3 e afins). Para vc ter uma idéia, eu baixo cds da internet(mas compro original também), no entanto, música erudita eu faço questão de sempre comprar o original(pela questão da qualidade sonora). Talvez por essa razão, hoje a música erudita seja o único campo em que pode ser rentável ter uma gravadora ou selo.

Há também a questão tocada pelo amigo Jabijirous , sempre participo de festivais de música erudita, e estão SEMPRE cheios de alunos e público interessado(jovens inclusive). Muitos dizem que ir ao concerto é caro, mas os ingressos mais baratos costumam ser de música erudita(mais barato que ir a show do Pink Floyd, Rock in Rio, e etc, esses sim caros pra cacete!).



Seria o mesmo que gravar discursos do Mao, ninguém entenderia.

Mais de 1 bilhão de chineses entenderiam, e pode ter certeza que alguns milhares talvez comprassem...

O projeto da vanguarda ainda tem algo a fazer? O que vem depois do moderno?

Mas é necessário um "projeto" de vanguarda? Boa parte das mudanças não vieram de projetos organizados e conscientes. O que vem depois do moderno? Deixemos que as gerações futuras rotulem a nossa era, para mim isso realmente não interessa. Assim como não fazia diferença para Bach saber se ele estava no Barroco, se era o fim do estilo e etc..., ele apenas produzia música que gostava...

Jabijirous
Veterano
# dez/07
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O ponto é, sobram músicos e faltam compositores, isso não só na música erudita.


ehauheiauheaiueh nao ta faltando compositor coisa nenhuma, ta faltando os musicos deixarem de ser preguiçosos e estudar!! senao a gente ainda vai ficar mais um milenio escutar muita romantica pra baixo!! são poucos músicos brasileiros que tocam musica contemporanea!! ainda mais quando tem muita poliritmia!! nego nao toca nao!!! agora compositor tem um monte, é como mosquito da dengue!! tem em qual quer lugar( piada velha, mas sempre vale apena falar dela :P)

Sharper
Veterano
# dez/07
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J. S. Coltrane
Mas qual o sentido de gravar música erudita se o público é pequeno e visto como elitizado?

Essa sua pergunta mostra a origem de toda a confusão.

Com o capitalismo, as pessoas pagam de acordo com o valor que dão às coisas. Se tem pouca gente que aprecia música erudita e essas pessoas estão dispostas a pagar pouco, não há MERCADO. Se você quer ganhar DINHEIRO com música, tem que fazer forró, pagode, música que VENDA.

Se você quer fazer ARTE pela ARTE em si, e não como uma fonte de renda e lucro, você não precisa que ninguém te PAGUE pra isso. Faça, guarde só pra vc se quiser, ou divulgue de graça.

Não foi o capitalismo, gravadoras e mercado que acabaram com a música erudita (e de qualidade, em geral), mas os músicos profissionais que se tocaram e foram pra onde dá lucro. Questão de inteligência. Tem que saber dançar conforme a música.

J. S. Coltrane
Veterano
# dez/07
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O ponto é, sobram músicos e faltam compositores

Isso seria uma evidência. Se [quase] todo o repertório de música erudita é anterior ao século XX, devemos nos perguntar porque.

Jabijirous
Veterano
# dez/07
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devemos nos perguntar porque.


eu ja falei o pq!!!

embora nao seja atual mas o povo ainda acha a estética feia e por isso nao toca muito, atonalismo nego nao gosta!!

o eletronico nego nao gosta

o eletronico + instrumento nego nao gosta

a música experimental nego nao gosta

Obs: Karlheinz Stockhausen morreu nessa quarta feira dia 5!! é outro que no brasil ninguem toca musica dele!!

-GUS-
Veterano
# dez/07
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J. S. Coltrane
A música erudita morreu?

NÃO!!!

J. S. Coltrane
Veterano
# dez/07
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a música experimental nego nao gosta

'Nego' não gosta ou não entende? O que faz ele não entender? Porque não se cria novos padrões estéticos?

Essas perguntas ainda estão no ar.

makumbator
Veterano
# dez/07
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J. S. Coltrane

'Nego' não gosta ou não entende? O que faz ele não entender? Porque não se cria novos padrões estéticos?

Existem os que apenas não gostam e os que não entendem.
Não entendo porque vc quer que se criem novos padrões estéticos...isso ocorre naturalmente, é o tipo de coisa que não se prevê e nem se apressa(minha opinião, é claro).

J. S. Coltrane
Veterano
# dez/07
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Novos padrões estéticos não foram criados desde o modernismo, ao contrário de épocas passadas. Novos padrões não serão criados no mundo da mercadoria. As vanguardas esgotam as possibilidades e nos jogam em um vazio. Aonde está o público para as composições contemporâneas? Se a música erudita não morreu, aonde ela está? Existe lugar para ela no mundo produtor de mercadorias?

Jabijirous
Veterano
# dez/07
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J. S. Coltrane

existe e concerteza é fora do brasil, se tu tem o brasil como referencia de musica erudita voce esta por fora!! isso "nao faz" parte da nossa cultura!!! nao é facil de entender uma suite qual quer, ou uma sinfonia!!o brasil um pais de canções pop! acho que a unica coisa que brasil nao devia fazer era tentar ser um estados unidos da vida!! podia pegar um pouco mais da europa, pois lá a musica de concerto sempre falou mais alto!!

makumbator
Veterano
# dez/07
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J. S. Coltrane

Existem inclusive vários festivais e concursos de música moderna no Brasil e no exterior(eu mesmo já participei de alguns), e não são vazios e nem elitizados não!

Jabijirous
Veterano
# dez/07
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exatamente, a bienal de musica brasileira contemporanea ta ae pra isso!!

Ken Himura
Veterano
# dez/07
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Estudar música para apreciá-la? Quantas pessoas fazem isso?
Cara, só de saber que toda a educação do bloco soviético incluía a música, e que os públicos lá são culturalmente elevadíssimos, já tem gente pra caralho aí. Soma-se esses aos indianos, japoneses e chineses (entre outros povos asiáticos), que são amantes da boa música. Bom, acho que já tem quase metade do planeta aí.

O ponto é, sobram músicos e faltam compositores, isso não só na música erudita.
Acho que é o contrário. As faculdades de música estão cheias de alunos de composição, junto dos de regência e instrumentos. O que falta, ao meu ver, é coragem de apresentar algo novo - coisa que em muitos lugares (Dinamarca, Alemanha, Rússia, por exemplo) as pessoas ousam e gostam de novidades.

Acho que deveríamos ter essa ânsia aqui também, para que não tenhamos que descobrir nosso valor por intermédio de estrangeiros.

Por exemplo? Villa-Lobos escreveu 12 sinfonias. Alguém já escutou todas?
A Filarmônica de Berlim acabou de fechar um ciclo e lançar uma gravação com a integral das 12 sinfonias.

Novos padrões estéticos não foram criados desde o modernismo, ao contrário de épocas passadas
Desculpa, mas Guerra-Peixe criou o serialismo nordestino por volta das décadas de 70/80. Claudio Santoro foi um dos mais engenhosos compositores do século, criando e revolucionando formas - tanto que foi convidado pela cidade de Mannheim para compor uma música ao festival do ano Mozart. Ele compôs então as "Bodas sem Fígaro", pegando parâmetros da abertura da famosa ópera e colocando aleatoriamente num sintetizador, que interagia com a orquestra.

Guerra-Peixe tem frases atonais e seriais que são tão belas quanto às que Chopin e Liszt faziam nos limites do tonalismo.

Claudio Santoro morreu em 89. Até hoje eu não ouvi sequer uma das suas CATORZE sinfonias. Sendo que até hoje a música dele é bem vista na Europa, sobretudo na Alemanha e Rússia.

Ken Himura
Veterano
# dez/07
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"1937 - Completa o curso de graduação no Conservatório de Música do Distrito Federal. A professora Nadile de Barros o estimula a compor, dado o seu extraordinário desempenho no curso de harmonia.
1938 - Assume o cargo de professor assistente de violino no Conservatório de Música do Distrito Federal. Compõe um quarteto para cordas, uma sonata para violino e várias peças que merecem elogios de Francisco Braga.
1939 - Toca em Manaus e inclui no programa duas obras de sua autoria. No Rio, além de violino, passa a lecionar harmonia e contraponto. Compõe uma sinfonia para duas orquestras de cordas, obra em que revela técnicas da vanguarda internacional antes mesmo de conhecê-las."

Achei legal frisar este trecho do vitae do Claudio Santoro, sobretudo a parte em negrito. Daí, dá pra sentir a revolução toda que viria pela frente.

Jabijirous
Veterano
# dez/07
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Ken Himura

me disseram que ele foi comunista, derrepente uma coisa leva a outra!realmente santoro nao tem muita coisa disponivel aqui, diferente do camargo guarnieri

Ken Himura
Veterano
# dez/07
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Jabijirous
Pois é. Acho que ele foi comunista mesmo, mas olha a época em que eles viveram, foi uma bagunça isso.

J. S. Coltrane
Veterano
# dez/07
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Guerra-Peixe criou o serialismo nordestino por volta das décadas de 70/80

Se uma pessoa é o suficiente para criar um movimento, estamos de volta ao problema da Torre de Babel, aonde cada um fala para si mesmo. Aonde entra a coletividade nisso? Ela existe [ou pode existir]?

makumbator
Veterano
# dez/07
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J. S. Coltrane

Se uma pessoa é o suficiente para criar um movimento, estamos de volta ao problema da Torre de Babel, aonde cada um fala para si mesmo. Aonde entra a coletividade nisso?

Uma pessoa sozinha pode criar, mas dentro de um contexto coletivo do momento, e não como um evento descolado da história. No fim das contas pode-se dizer que não existe criação pessoal, pois o background do próprio autor acaba contribuindo para a nova obra.

Ken Himura
Veterano
# dez/07
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J. S. Coltrane
Não entendo você. O problema não era a falta de criatividade? Então quando alguém cria algo novo, você vem e reclama que não tem ninguém seguindo?

Que tipo de mudança, então, você espera?

Ken Himura
Veterano
# dez/07
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Aonde entra a coletividade nisso? Ela existe [ou pode existir]?
Aliás, procure conhecer o movimento cultural Armorial e como ele surgiu.

J. S. Coltrane
Veterano
# dez/07
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Ken Himura

Não é uma questão de falta de criatividade, mas do local para ela.

Jabijirous
Veterano
# dez/07
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J. S. Coltrane

o q mais tem é lugar pra música!! aqui no rj é o q mais tem!! alias se voce pegar o caderno viva música, voce vai ver que tem mais concerto de música erudita que de rock ou outro estilo!! todo dia tem de 3 a 5 concertos!! é só saber procurar, e tem pra todos os gostos!!

Ken Himura
Veterano
# dez/07
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Exatamente como o Jabijirous disse, aqui no Rio concerto não falta. Obras de todos os períodos e nacionalidades, a maioria com ingressos a preços populares.


O único problema é a divulgação, não são muitos os meios que divulgam música de concerto.

Mas sim, espaço pra música e público tem sim.

J. S. Coltrane
Veterano
# dez/07 · Editado por: J. S. Coltrane
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Não estou dizendo que não há música erudita, não estou negando a realidade nesse nível. Só estou perguntando se a música erudita é possível no capitalismo e o que aconteceu depois do projeto vanguardista do modernismo.

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