Ismah Veterano |
# 22/jan/26 00:01 · Editado por: Ismah
Bem, gostemos ou não, desde minha última visita aqui, esses dois gêneros ganharam muito espaço. A discussão não deve recair sobre se é ou não bom, o que soa sempre absurdo, dado que é uma escolha pessoal.
Também não cabe dizer que não afetou. Obviamente, se formos olhar pelos olhos de um conservador, que ainda acredita que o suprassumo da música foi no século XVII, talvez nada seja relevante. Como bossa, choro e samba de enredo, jazz, rock e praticamente todo universo pop... Gostemos ou não, ainda que através de formas discutíveis, isso foi enfiado na mente do brasileiro médio, e está aí... Eu mesmo, ainda resisto, mas paguei algumas contas através disso.
Entretanto, estava contribuindo com mais uma cifra de sertanejo (ou seja lá o que for), e reparando como ela é razoavelmente mais complexa, frente ao que se via quando passei a frequentar aqui, 15 anos atrás... Mas também reparei como se visita conceitos que via ainda muito pontualmente no gospel.
É verdade que me afastei da religiosidade, mas indiretamente sempre estive lá. E é visível como que as coisas mudaram dentro dos templos, pensando principalmente no que veio a ser chamado "parede preta". Não levem de forma pejorativa, mas para apontar claramente o contraste, que evidentemente é maior em igrejas em bairros nobres.
Isso nos trás ao fato que a esmagadora maioria dos músicos de profissão, tem vindo do universo religioso. Não se esperaria menos, já que é quase apenas nas igrejas que se tem oportunidade e incentivo à música. Aliás, já vivemos um período que muitos destes construíram carreira como compositores, arranjadores, diretores artísticos e musicais.
A cadência do exemplo é em Dm
Dm C9 G Bb Im VII9 IVM VI
Notadamente, esse G não faz parte dos acordes da tonalidade. É um empréstimo modal do D dórico.
De forma funcional, acontece algo muito interessante... Temos na minha interpretação:
Dm -> tônica C9 -> sub-tônica, tônica fraca ou terceira tônica (já li os três termos) G -> subdominante ou transitório / empréstimo modal Bb -> submediante, tônica média ou segunda tônica
Eu sei que é quase tosco esse exemplo, mas considerem que a moda de viola muito se baseou em tônica e quinta, no máximo uma quarta ou sexta, para criar alguma passagem.
Todavia, essa cadência não se resolve, mas também não cria nenhuma tensão - aka acorde dominante. Ela literalmente anda em círculos o tempo inteiro, ad aeternum, se assim se desejar, mas sem a "monotonia" de ficar no mesmo acorde. Esse G, como se espera do modo dórico, soa "festivo", "alegre", trazendo essa sensação de "brilho", e ascendência...
Como dito, a muito tempo deixei de ser um levita, mas lembro que isso era relativamente comum em músicas para "músicas de adoração". Nada mais que aquela música pano de fundo para orações voltadas a adoração.
Historicamente, cadências assim tem certo "ar xamânico", usam bastante desses recursos. O new age, música ambiente, e afins, são bem apoiados nisso. E isso nos leva ao ponto que nada se cria, mas sim tudo se transforma. Esse fenômeno chamei de "sincretismo religioso-musical".
E, dado ao contexto, é difícil desassociar a origem do conceito. Tenho notado coisas assim com muita frequência no universo popular, inclusive pela própria demanda para redes sociais. Lembro que foi difícil conseguir um exemplo pop para exemplificar isso em sala de aula.
Naturalmente, o músico de apoio não necessariamente precisa saber isso tudo, mas já não vejo mais como viver sem saber. Artistas intermediários, já tem uma demanda alta em relação à teoria musical. Tem que se garantir muito pra seguir uma regência ao vivo.
Não é incomum ter mudanças grandes no ao vivo. Tanto trocando acordes, pensando em recomeçar a música em outra tonalidade, quanto em estética, por exemplo tirando da cartola um ou dois compassos de salsa ou reggae, no meio de uma levada aleatória. Por que? Primeiro por estética, quebra da expectativa, etc. Mas também porque tem diretor musical maluco, doido das ideias mesmo, que inventa nos arranjos (a escola dub nunca esteve tão em alta). Acaba sendo incentivado, para criar uma certa distinção, dado que os repertórios de cover, ficaram muito parecidos.
|
Buja Veterano |
# 22/jan/26 09:53
· votar
Ai tem algumas coisas muito interessantes que voce pontuou, e sim, a gente ve esse movimento acontecer...
A igreja hoje é mais escola de musica do que muito instituto por ai. Basicamente que é o principal lugar onde se forma músico no Brasil. Não por teoria, mas por prática constante, banda completa e pressão real de palco. Quem toca lá aprende a ouvir, acompanhar, transpor e obedecer direção musical. Pra mim o músico gospel como um geral, não precisa entender função harmônica completa. Basta saber: “isso abre”, “isso fecha”, “isso sobe”.
Logicamente que existem excelentes e grandiosos musicos nesse meio (gospel) que são reais doutores em teoria musical. Mas a maioria nao. Aprenderam foi no louvor mesmo. E tem uma tecnica apuradíssima, mas tocam é so aquilo mesmo.
Ja na contra-partida, o sertanejo mais antigo, raíz, era pobre musicalmente. Assim como o blues. Aquela formulazinha que nunca falha, e tambem nao sai daquilo. Hoje o sertnejo realmente evoluiu. Eu vejo arranjos e solos de duplas atuais e fico: Poxaaaa, que genial! Continua simples, agradavel, mas é muito mais complexo e rebuscado. Na epoca do Tiao Carreiro nao era assim.
Eu nao conheco nada de golspe, mas ja falando sobre a harmonia que voce exemplificou: Dm – C9 – G – Bb Tonica – 7/9 – IVM (dórico) – Sexta bemol
Eu vejo esse quarta maior como funcao de luminosidade, que tal aquela expansão emocional. Não chega a tensionar pedindo pra resolver. Isso seria funcao de uma setima. Que nem está ai nessa cadencia, e se tivesse, ela faria funcao de "circular" a musica, deixa-la em um circulo enfadonho e pop.
Ao usar esses tipos de "emprestimos modais" a sensacao que eu tenho é que, a banda não deseja que a musica termine logo. Desejam que ela possa durar 20 min para o louvor continuar, as orações seguirem, se ficar tenso nem desconfortável (com o cerebro implorando por uma resolução tonica) Ta mais pra um acorde que suspende o tempo, e permite prolongar.
Ja vi musiquinha de fundo de video instagram fazer isso, pra voce poder ver em loop sem cansar.
|