Sobre gravação em 4 canais + livro - My Life Recording the Music of the Beatles

    Autor Mensagem
    kiki
    Moderador
    # mar/13


    Tópico 2 em 1

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    1
    Uma reflexão sobre a gravação do disco Sgt. Pepper's Lonely Heart Club Band, doa Beatles:

    Em 1967, gravadores 8 faixas começavam a surgir nos estúdios profissionais (levaria mais de um ano até a EMI adquirir um equipamento destes), então o álbum Sgt. Peppers foi inteiramente gravado em um 4 faixas. Pouco depois, 16 faixas e 24 faixas se tornariam o equipamento padrão de gravação, fornecendo mais espaço livre nas fitas para sobrepor instrumentos com melhor controle sonoro. Mas George Martin declarou em várias entrevistas que o Pepper não teria sido tão bom se tivesse sido gravado em 24 faixas, e eu concordo plenamente. Porque muitas dessas limitações que nos foram impostas nos forçavam a tomar decisões criativas o tempo todo. Necessidade era a mãe da invenção, essa foi parte da mágica do álbum. Você tinha que pôr o eco correto, a equalização correta, o processamento correto do sinal; a execução tinha que estar certa, o vocal também. Isso fazia as coisas mais fácil de alguma maneira, pois senão haveria muitas variáveis e muitas decisões para serem delegadas até a fase de mixagem. (p. 191)

    Há muito mais opções disponíveis para os engenheiros de som hoje – faixas ilimitadas, meios ilimitados de manipulação de sinal, tempo ilimitado para mixar – mas eu não vejo isso necessariamente como algo bom, porque isso torna possível postergar decisões constantemente. Alguns produtores atuais podem gravar quinze takes ruins e recortar pedaços úteis deles para conseguir uma faixa certa. (p. 368)

    Achei muito interessante isso, pois eu sinto exatamente isso hoje com canais infinitos no computador: eu não sei onde quero chegar, simplesmente vou gravando e gravando por cima, e vou tentando fechar alguma unidade na mix.

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    2
    Esses trechos foram extraídos deste livro:
    Here, There and Everywhere: My Life Recording the Music of the Beatles
    Geoff Emerick, Howard Massey
    http://www.amazon.com/Here-There-Everywhere-Recording-Beatles/dp/15924 02690

    Acabei de ler faz pouco tempo, e recomendo a todos que gostam de saber sobre a evolução das gravações em estúdio e/ou gosta de Beatles.
    O cara foi engenheiro de som da EMI (Abbey Road) em vários dos principais discos da banda, e conta vários detalhes e curiosidades tanto técnicos como artísticos.

    em inglês, comprei pela amazon.

    Adler3x3
    Veterano
    # mar/13 · Editado por: Adler3x3
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    Kiki.
    Bem legal.
    Existe um documentário mais recente (5 ou 6 anos) em que o Paul demonstrou isto a uma pequena platéia, usando um gravador de 4 pistas antigo.
    E foi fazendo as gravações por etapas demonstrando o processo.
    E depois no final fez uma gravação usando os recursos tecnológicos de hoje.
    E a música foi composta na hora.
    Em algum lugar deve existir este vídeo.

    Lelo Mig
    Membro
    # mar/13
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    kiki

    Sem dúvida tudo têm sempre dois lados....

    Uma menor capacidade tecnológica exigia maior conhecimento e criatividade para se fazer algo diferente...fugir das limitações é sempre um grande desafio.

    O mesmo vale para músicos que começaram com instrumentos super ruins e vagabundos... muitos desenvolveram estilo, técnica e timbre singulares, por conta de ter iniciado com instrumentos fuleiros e ter que tirar leite de pedra.

    Casper
    Veterano
    # mar/13
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    Caro Adler3x3:

    O vídeo é esse e a parte do gravador é a partir de 12:00
    mais ou menos:



    Lelo Mig
    Membro
    # mar/13
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    Casper

    Tio MacCa, não sabe nada de studio. Muito novinho, tem muito que aprender...nem fez parte do momento que revolucionou os métodos de gravações e experimentalismo...hehe

    Num sabe nada...kkkkk

    Adler3x3
    Veterano
    # mar/13
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    Casper
    Acertou é este o vídeo.

    kiki
    Moderador
    # mar/13
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    Casper
    Adler3x3
    Lelo Mig
    é, eu já tinha visto esse vídeo!

    inclusive no livro ocara deixa bem claro que o Paul era quem mais se interessava e entendia do funcionamento do estúdio. tanto que depois o cara foi gravar os wings, e ele participou do "band on the run", que foi um dos grandes sucessos do Paul solo (a mesma música que ele faz no 4-canais nesse video!)

    Lelo Mig
    pois é, eu acredito muito nesse princípio do tirar leite de pedra, e vale pra instrumentos, como voce bem apontou!

    Adler3x3
    Veterano
    # mar/13 · Editado por: Adler3x3
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    Todos

    Se bem que o gravador que aparece no vídeo é o "gravador", top na época.
    Queria ter um destes.
    Mesmos nos dias de hoje seria muito útil.

    Casper
    Veterano
    # mar/13 · Editado por: Casper
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    Caro Lelo Mig:

    É verdade, eu nem sabia direito o nome dele, e
    fui assistir (sem querer) o show do MacCa ao vivo.
    Na verdade, ele é enganação, fica tocando
    músicas de outra banda que já acabou, e que
    pelo que entendi, se chamava "beatles".
    Acho que o certo deveria ser "beetles", mas acho
    que eles não sabiam escrever direito.

    Caro Adler3x3:

    Eu queria o Abbey Road inteiro, se eu pudesse...

    kiki
    Moderador
    # mar/13
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    pelo que entendi, se chamava "beatles".
    que banda é essa? acha videos no youtube?

    Lelo Mig
    Membro
    # mar/13
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    kiki

    Se procurar bem, pode até achar alguma coisa...mas é meio difícil.

    A banda não fez sucesso e foi totalmente insignificante para o cenário Pop/Rock....

    Casper
    Veterano
    # mar/13
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    Caro Lelo Mig:

    Consegui achar alguma coisa, e descobri que eles
    faziam uma ponta no "Vila Sésamo".




    Lelo Mig
    Membro
    # mar/13
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    Casper

    Até que era boazinha, hein?? Me lembrou bastante o Boomtown Rats



    MMI
    Veterano
    # mar/13
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    kiki

    Eu não tenho dúvidas que as músicas soavam de acordo as tecnologias da época, então a coisa era feita de acordo as limitações. Acredito mesmo que não dava para ir muito além daquilo e então o som traduzia o que se podia fazer. Também, a forma de se gravar e de se trabalhar dentro dos estúdios mudou muito. Tenho a impressão que até a maneira de se tocar, de se estudar para entrar em estúdio, tudo isso é completamente diferente.

    Por exemplo, em Twist and Shout o Lennon gravou no fim de um dia de gravação, já rouco e sem voz, nítidamente a voz dele está no limite. Duvido que hoje em dia uma banda grande e famosa gravaria nessas condições.

    Um pouco mais tarde, o Queen gravou Bohemian Rapsody em 24 canais, mas era impossível botar aquilo tudo em 24 canais (que era o possível na época). Já viu os documentários?

    Lelo Mig
    Membro
    # mar/13 · Editado por: Lelo Mig
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    MMI

    Exato!

    Num ambiente totalmente analógico, onde até o clima alterava as condições físicas dos materiais e equipos, qualquer coisa mudava todos os planos, e os caras tinham que estar prontos para dar novas idéias, improvisar e experimentar. A criatividade somada a experiência eram determinantes para captar o "clima" desejado à canção ou álbum.

    Outro exemplo clássico é o Machine Head do Deep Purple. A EMI montou um baita studio móvel, alugando uma suíte de hotel só para esse fim.

    No final, algo não soava agradável, não se conseguia o "tempero" e o Deep Purple acabou gravando (o que para muitos é seu melhor álbum) espremidos no corredor do hotel e num banheiro.

    Casper
    Veterano
    # mar/13
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    "If you can’t do it on 24 tracks, there’s a problem."
    – Daniel Lanois, Producer (U2, Bob Dylan, Peter Gabriel)

    fonte:

    http://therecordingrevolution.com/2013/02/01/why-24-tracks-is-all-you- need/

    Recomendo a leitura desse artigo, é curto e preciso.

    Mixar muitos canais é realmente complicado, muitas coisas
    começam a disputar espaço e, sem uma estratégia correta,
    é fácil perder o controle na mixagem. Nas JAM's de teclado daqui
    (onde participo sistematicamente) dificilmente passo de 10, 12
    canais. Quando tentei passar muito disso, geralmente o
    resultado ficou confuso. Bohemian Rapsody é uma aula de
    como mixar.

    MMI
    Veterano
    # mar/13 · Editado por: MMI
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    Lelo Mig

    O fato em comum é que tanto Beatles, quanto Queen ou Deep Purple tinham que pagar muito caro por um estúdio. Era caro e difícil, pois era a única forma de se gravar e essas bandas poderosas podiam pagar, se muito, 3 ou 4 dias de estúdio, mesmo porque depois já era vez de outra banda. No caso de Bohemian Rapsody, foi a música mais cara já gravada em toda história, foram várias sessões destas para só uma música, mas mesmo os Beatles gravavam um disco inteiro numa sessão destas.

    Algo muito legal a se lembrar é que já chegando na década de 70 os Rolling Stones montaram um "Mobile Studio" - na verdade, dizem ter montado isso em 68. Basicamente era um caminhão com aparelhos para gravação. Isso porque o Mick Jagger resolveu que ia gravar em sua casa de campo (Stargroves). Então nas horas vagas o caminhão era alugado para bandas como Deep Purple, Lou Reed, Bob Marley, Fleetwood Mac, Bad Company, Status Quo, Led Zeppelin, Iron Maiden, Wishbone Ash etc. A banda alugava o equipamento e o caminhão se dirigia até lá.

    O Led Zeppelin, por exemplo, resolveu que ia gravar numa casa de campo, Headley Grange. Basicamente uma casa onde achavam que tinha uma boa acústica. Outros também gravaram lá, como Bad Company, Fleetwood Mac, Genesis, Peter Frampton, mas nesta casa improvisada de estúdio e com o Stones Mobile Studio o Led gravou Led Zeppelin III, Led Zeppelin IV, Houses of the Holy e Physical Graffiti. Como curiosidade, na casa apareceu um cachorro preto (Labrador Retriever) durante as gravações, virou Black Dog.

    Casper

    Em home studio eu concordo plenamente com você. A questão é que hoje tem gente que usa umas 20 tracks só para a bateria... Um violão sozinho já vão 4 ou 5 canais. Não tem jeito quem aprendeu naquela época sabe fazer em 24 canais, mas a geração Pro Tools não faz mais isso.

    (Kiki, desvirtuei, né? kkkk)

    Casper
    Veterano
    # mar/13 · Editado por: Casper
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    Caro MMI:

    Deixe-me contar um causo. Estava eu uma vez ao lado de um
    cidadão em uma mesa de 24 ou 32 canais tentando fazer uma
    "rough mix", e a bateria claramente estava atrapalhando.
    Tinha, como vc disse, quase os 20 microfones. Eu sugeri
    que deveria ser problema de fase (o que é meio óbvio), e
    simplificamos deixando apenas o bumbo, caixa e um overhead.
    Ficou bem melhor na hora. Quando adicionamos o segundo
    overhead, começou a melar, e no final a bateria toda saiu
    com 3 microfones apenas. Ficou excelente? Não, mas bem melhor
    que com trocentos microfones e seus respectivos conflitos
    de fase.

    São minhas impressões, veja bem, não sou profissional,
    minhas impressões são baseadas em estúdios caseiros
    precários e/ou médio-precários.

    MMI
    Veterano
    # mar/13
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    Casper

    Acredito plenamente, jovem Casper... (hehehehe)

    Meter uma bateria com 20 canais, baixo com mais 6, cada guitarra com mais 6 e por aí vai, quando vê o projeto tem umas 100 tracks fácil. É fácil se perder nesse mundo de informações sonoras.

    Por muito menos, já vi técnico de estúdio grande (nada de precário) se perder num projeto voz e violão, tudo bem, tinha uma percussão aqui e ali e um toquezinho de guitarra as vezes. Se perde mesmo nessa de abrir canais.

    Inclusive já vi técnico de estúdio muito bem equipado, gravação comercial para gravadora, que começou a meter microfone, prés e canais a rodo numa gravação de violão (sim, um cara tocando violão, sem overdubs). Eu olhei para aquilo tudo e pedi humildemente, bota um cabo no pré do violão e abre um canal em linha, como se estivesse gravando tosqueira em casa. Sabe qual foi o canal que salvou a gravação e ficou em primeiro plano? Pois é... Muita gente não sabe lidar com a coisa, mesmo dentro de um ambiente dito profissional.

    makumbator
    Veterano
    # mar/13 · Editado por: makumbator
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    MMI
    Inclusive já vi técnico de estúdio muito bem equipado, gravação comercial para gravadora, que começou a meter microfone

    Eu já vi técnico querendo gravar cello e contrabaixo acústico com arco com microfone muito próximo da abertura harmônica. Fica uma merda, pois pega muito "sopro" do arco e barulhos indesejáveis de certos golpes de arco. Além de ser um timbre muito agressivo e pouco representativo do som global do instrumento.

    Foi preciso explicar que nesses instrumentos o melhor som está mais afastado. Provavelmente se ele estivesse com uma orquestra de cordas iria querer colocar um mic em cada instrumento, o que é totalmente absurdo do ponto de vista da estética erudita.

    MMI
    Veterano
    # mar/13
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    makumbator

    Imagino que uns 200 canais para esse cara gravar uma orquestra seria pouco... kkkkkk

    makumbator
    Veterano
    # mar/13
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    MMI

    Imagina um cara desse para gravar uma peça com orquestra sinfônica completa (com naipe imenso de percussão) + coro adulto + coro infantil + quarteto de cantores solistas + alguns solistas instrumentais

    Precisaria de uns 800 canais...

    kiki
    Moderador
    # mar/13
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    MMI
    (Kiki, desvirtuei, né? kkkk)
    desvirtuou nada mano, tá esticando a conversa! manda bala!

    to só acompanhando aqui... eu como sou beatle-lado, sei poucas histórias de outras bandas.
    mas o documentario do queen eu ja vi, exatamente por aquele seu post!

    kiki
    Moderador
    # mar/13 · Editado por: kiki
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    Casper
    e no final a bateria toda saiu com 3 microfones apenas.

    tem um designer que fala que pra resolver um problema temos primeiro que considerar a hipótese de reduzir elementos...

    legal o artigo que voce postou, acho que é mais ou menos o mesmo espirito, só que atualizado!

    kiki
    Moderador
    # mar/13
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    Casper
    Adler3x3
    no video do macca, aos 58:

    a letra original diz assim:
    "You can burn my house, steal my car
    Drink my liquor from an old fruit-jar "

    mas eu ouço
    "you can steal my hof, burn my car"
    que ele inverte os verbos ele inverte, não sei se o "hof" é coisa da minha cabeça, sabendo que ele já teve um violin bass roubado...

    MauricioBahia
    Moderador
    # mar/13
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    kiki

    Muito bom!!!!

    Depois vou dar uma lida com mais calma.

    Valeu!

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