Beleza - O tópico do elitismo artístico

Autor Mensagem
General Patton
Membro Novato
# fev/16 · Editado por: General Patton




“Em qualquer época entre 1750 e 1930, se você pedisse às pessoas cultas para descrever o objetivo da poesia, da arte ou da música, elas teriam respondido: a Beleza. E se você perguntasse pela razão disso, você aprenderia que a Beleza é um valor, tão importante quanto a Verdade e o Bem.

Depois, no século XX, a beleza deixou de ser importante. A arte, cada vez mais, concentrou-se em perturbar e em quebrar tabus morais. Não era a beleza, mas a originalidade, conseguida por qualquer meio e a qualquer custo moral, que ganhava os prêmios.

Não apenas a arte fez um culto à feiura; a arquitetura também se tornou desalmada e estéril. E não foi somente o nosso ambiente físico que se tornou feio. Nossa linguagem, nossa música e nossas maneiras estão cada vez mais rudes, egoístas e ofensivas; como se a beleza e o bom gosto não tivessem nenhum lugar real em nossas vidas. [...]

Eu acho que nós estamos perdendo a beleza e há um risco de que, com isso, nós percamos o sentido da vida.”


São essas as palavras com que o filósofo e escritor inglês Roger Scruton (1944- ) abre o documentário Why Beauty Matters? (Por que a beleza importa?), exibido em 2009 pela emissora BBC como parte da série Modern Beauty. Scruton, que é também autor de um livro sobre o tema (Beauty, Oxford University Press, 2010), defende neste vídeo a tese de que a beleza importa, não apenas como algo subjetivo, “mas como uma necessidade universal dos seres humanos”, destacando igualmente o fato de que, no século XX, após ter cumprido por mais de 2 mil anos um papel essencial em nossa civilização, a beleza deixou de receber a devida importância: “nosso mundo virou as costas para a beleza”, de modo que nos encontramos “rodeados de feiura e demência”.

Ele entende que, para os artistas do passado, a beleza era o remédio para o caos e o sofrimento da vida: “A bela obra de arte traz consolação na tristeza e afirmação na alegria. Ela mostra que a vida humana vale a pena”. Porém “muitos artistas modernos se cansaram dessa tarefa sagrada”, julgando que “a desordem da vida moderna não poderia ser redimida pela arte”. Em vez disso, tal desordem deveria ser exposta.

O marco dessa mudança foi, segundo Scruton, a célebre Fonte de Marcel Duchamp, não em si mesma, mas pelas interpretações que gerou, as quais levaram à conclusão de que tudo pode ser arte. “A arte não mais tem uma posição sagrada, a arte não mais se eleva a um plano moral ou espiritual mais alto; ela é apenas mais um gesto humano entre outros, sem maior significado que uma gargalhada ou um grito.”

Trocou-se o culto à beleza pelo culto à feiura: “Uma vez que o mundo é perturbador, a arte deve ser perturbadora também. Aqueles que procuram por beleza na arte estão somente desligados da realidade moderna.”

Perceba-se a particularidade deste fato para o qual Roger Scruton nos chama a atenção. No caso, apelar para a subjetividade presente na avaliação dos valores estéticos não resolve o problema levantado pelo filósofo, pois aqui não se trata simplesmente de uma mudança de critério para o julgamento sobre a beleza de uma obra de arte. A mudança foi de intenção.

Em primeiro lugar, houve por um lado a drástica diminuição de importância dada à beleza em relação a outros valores, de outra espécie que não a estética, como a novidade, a utilidade, a incomodidade, a agressividade. Ou seja, aconteceu uma transmutação na hierarquia dos valores. Em segundo lugar, dependendo de qual daqueles novos objetivos estivesse em foco, houve uma alteração, em nível escalar, do próprio valor estético almejado, passando-se do belo para o feio: se o objetivo principal é perturbar ou ofender, a feiura estará sem dúvida mais apta a alcançar tal objetivo.

Assim, a crítica de Scruton a esse tipo de arte não é equivalente, por exemplo, às críticas dos acadêmicos em relação à pintura impressionista ou dos renascentistas em relação à arte medieval. Tais divergências de gosto na história da arte sim podem justificar-se por certa subjetividade própria dos julgamentos de valor. É possível dizer que acadêmicos, impressionistas, renascentistas e medievais privilegiavam aspectos diferentes da beleza. Mas nenhum deles poderia ser acusado de desprezá-la em sua totalidade ou de buscar deliberadamente produzir algo feio.

Teria a arte mudado de natureza no século XX? Ou melhor, teria sido o termo “arte” indevidamente apropriado por algo alheio a ela? Questões como essas surgem das tiradas irônicas de Scruton:

“Às vezes a intenção é nos chocar, mas o que é chocante na primeira vez é chato e vazio quando repetido. Isso conduz a arte para dentro de uma piada intrincada, que agora deixou de ter graça.”

“A arte criativa não é realizada assim, simplesmente tendo uma ideia. Claro, ideias podem ser interessantes e divertidas, mas isso não justifica a apropriação do rótulo de ‘arte’. Se uma obra de arte não é nada mais que uma ideia, qualquer um pode ser um artista e qualquer objeto pode ser uma obra de arte. Não há mais necessidade de habilidade, gosto ou criatividade.”

“Então, a arte de hoje nos mostra o mundo como ele é, o aqui e agora com todas suas imperfeições; mas o resultado realmente é arte? Certamente uma coisa não é uma obra de arte somente porque mostra um pedaço da realidade (a feiura incluída) e se auto intitula de ‘arte’. A arte precisa de criatividade, e criatividade é sobre compartilhar, é um chamado para que os outros vejam o mundo como o artista o vê.”


Não se entenda que Scruton se refira a toda a arte produzida desde 1930 até os dias de hoje. É óbvio que expressões como “a arte de hoje” trazem implícita a existência de exceções à regra, o que é inclusive salientado pela menção, no vídeo, de duas dessas exceções: um escultor, Alexander Stoddart, e um arquiteto, Leon Krier. A “arte de hoje” a que o filósofo se refere é um tipo específico, que pode ser induzido a partir dos exemplos apresentados no documentário, e que recebe essa referência genérica por ser aquele de maior relevo e prestígio no establishment artístico, de tal modo que “Aqueles que tentam restaurar a antiga conexão entre o belo e o sagrado são vistos como antiquados e absurdos”. (Vale notar ainda que ele analisa especialmente a situação na Grã-Bretanha).

Do mesmo modo, não se entenda que para Roger Scruton a feiura e a perturbação devam ser inteiramente desvinculadas da arte. Não é assim. Após resumir a história das concepções filosóficas relativas à beleza (de Platão a Kant), ele volta a um ponto mencionado no início:

“Obviamente esse hábito de enfatizar o lado desolador da vida humana não é novo. Desde o início de nossa civilização, tem sido uma das tarefas da arte pegar o que é mais doloroso na condição humana e redimi-lo em uma obra de beleza. A arte tem a habilidade de redimir a vida ao encontrar beleza até nos piores aspectos das coisas.”

A diferença é exemplificada pela comparação entre uma pintura de Delacroix, que representa uma cama desarrumada, e uma instalação de Tracy Emin, que é uma cama desarrumada. Conforme interpreta Scruton, a pintura de Delacroix traz “beleza a algo que não a tem”, conferindo “uma espécie de bênção, em seu próprio caos emocional.”

“A cama é transformada pelo ato criativo, para se tornar outra coisa: um símbolo vívido da condição humana, um símbolo que estabelece um vínculo entre nós e o artista.” Embora alguns vejam esse significado também na instalação de Tracy Emin (intitulada “My Bed”), Roger Scruton faz uma distinção: “mas há toda a diferença do mundo entre uma verdadeira obra de arte, que transforma a feiura em algo belo, e uma falsa obra de arte, que participa da feiura que exibe”. A cama de Emin “é só mais uma realidade sórdida entre outras; literalmente, uma cama desarrumada.”

Enfim, a discussão levantada por Scruton se refere à hierarquização dos valores, ao porquê de certos valores valerem mais do que outros. E, nessa discussão, ele defende fervorosamente a importância da Beleza:

“Neste filme eu descrevi a beleza como um recurso essencial. Através da busca pela beleza, nós modelamos o mundo como um lar e, fazendo isso, nós igualmente ampliamos nossas alegrias e encontramos consolação para nossas tristezas. A arte e a música lançam uma luz de significado na vida ordinária e, através delas, nós somos capazes de enfrentar as coisas que nos preocupam e encontrar consolação e paz em suas presenças. Essa capacidade da beleza, de redimir nosso sofrimento, é um motivo pelo qual a beleza pode ser vista como substituta para a religião.

Por que dar prioridade à religião? Por que não dizer que a religião é uma substituta da beleza? Melhor ainda, por que descrever as duas como rivais? O sagrado e o belo, permanecendo lado a lado: duas portas que abrem para um único lugar; e, nesse lugar, nós encontramos o nosso lar.”


Wilson Filho Ribeiro de Almeida

pianoid
Veterano
# fev/16
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scrut está certo

foda-se toda arte do século XX, em particular o lixo musical

Edward Blake
Membro Novato
# fev/16
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Como disse no outro tópico: old.

Assisti a esse documentário há uns 3 anos ou mais -- o que corrobora aquilo que falei sobre os mitos originais do folclore de direita.

sallqantay
Veterano
# fev/16
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Scrut (atonal + noise) > Scruton

General Patton
Membro Novato
# fev/16
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Scrut (atonal + noise)

Bom espécime de lixo artistico progressista.

Assisti a esse documentário há uns 3 anos ou mais

Eu assisti ontem, obviamente.

Viciado em Guarana
Veterano
# fev/16
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“nosso mundo virou as costas para a beleza”, de modo que nos encontramos “rodeados de feiura e demência”

Porra nenhuma! A beleza nunca deixou de ser valorizada, o zé ruela aí só deve ter ficado mordidinho porque o que ele gostava e achava belo não tá mais na moda.


Ele entende que, para os artistas do passado, a beleza era o remédio para o caos e o sofrimento da vida: “A bela obra de arte traz consolação na tristeza e afirmação na alegria. Ela mostra que a vida humana vale a pena”.

O que é isso hoje em dia, senão o Poop?

Aceitem que dói menos!

pianoid
Veterano
# fev/16
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Viciado em Guarana
A beleza nunca deixou de ser valorizada, o zé ruela aí só deve ter ficado mordidinho porque o que ele gostava e achava belo não tá mais na moda.

http://4.bp.blogspot.com/-_ubj0YQiuko/Ul8-Zg4Q3OI/AAAAAAABEfQ/3GKGEopj 6IU/s1600/1+a+1+a+a+a+a+gord+virgie+tovar.jpg

Black Fire
Gato OT 2011
# fev/16
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Ainda só nos pré-aprovado pelo OdC?

megiddo
Membro
# fev/16
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Black Fire
Que saudade, ursão.

FELIZ NATAL
Veterano
# fev/16
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o cara não sabe nem limpar a bunda e quer cagar o que é arte

Casper
Veterano
# fev/16
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Os primeiros dois dos trinta e quatro:

http://www.amazon.com/History-Beauty-Umberto-Eco/dp/0847835308

http://www.amazon.com/On-Ugliness-Umberto-Eco/dp/0847837238/

pianoid
Veterano
# fev/16
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curiosamente, as duas capas são pinturas clássicas kkkkk

Insufferable Bear
Membro
# fev/16
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Se beleza é tão importante por que esse cara é tão feio? Cheque-mate.

makumbator
Veterano
# fev/16
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Insufferable Bear
Se beleza é tão importante por que esse cara é tão feio? Cheque-mate.

Zerou o tópico!

General Patton

Essa discussão é antiga (o que não quer dizer que o cidadão do vídeo não possa contribuir). Acho que a beleza ainda importa, mas o conceito do belo ficou mais elástico. E pelo menos em música muitas coisas que no passado eram tidas como feias foram aos poucos sendo incorporadas no belo (e isso desde Beethoven).

sallqantay
Veterano
# fev/16
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ou me mostra o belezômetro ou volta para o laboratório

Viciado em Guarana
Veterano
# fev/16
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pianoid
Padrão masculino nos dias de hoje:
https://www.youtube.com/watch?v=8OrADIhAY1s

Fidel Castro
Veterano
# fev/16
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o ser humano se afastou do natural, é um ser abstrato e absurdo. nada mais coerente sua arte ser também

One More Red Nightmare
Veterano
# fev/16
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As pessoas confundem a subjetividade psicológica da emoção com a própria (e objetiva) manifestação de uma emoção.

Se a beleza pode ser demonstrada como valor, então acredito que podemos demonstrar se está em decadência ou não.

O assunto tem valor científico e o autor parece ser bom. Tenho o livro aqui mas ainda não tive saco pra ler.

sallqantay
Veterano
# fev/16
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One More Red Nightmare

não tem valor, é metafísica pura

AtalaBukas
Membro Novato
# fev/16
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General Patton
“A arte criativa não é realizada assim, simplesmente tendo uma ideia. Claro, ideias podem ser interessantes e divertidas, mas isso não justifica a apropriação do rótulo de ‘arte’. Se uma obra de arte não é nada mais que uma ideia, qualquer um pode ser um artista e qualquer objeto pode ser uma obra de arte. Não há mais necessidade de habilidade, gosto ou criatividade.”

Sempre achei isso. Arte virou simplesmente a pura manifestação do ser humano, qualquer que seja. Se você fizer uma exposição onde a peça é você mijando ao vivo, em público, será considerado arte. Mas ainda há espaço para arte produzida com um valor estético apurado, a diferença que o público consumidor é reduzido, e faz parte de um nicho de mercado bem específico, como quem consome, por exemplo, música instrumental.
A beleza não é um conceito absoluto. Cada cultura tem o seu. A busca da beleza pode ser a busca pela simetria, ou a busca da maior expressão dos sentimentos, o que for mais verdadeiro. Beleza, pura e simplesmente, pessoalmente acredito que, em se tratando de arte, sempre está associado aos dois conceitos. Não assisti ao documentário, depois assisto com calma.

sallqantay
Veterano
# fev/16
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Fidel Castro
o ser humano se afastou do natural, é um ser abstrato e absurdo. nada mais coerente sua arte ser também

lero lero camus mode on

General Patton
Membro Novato
# fev/16
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Para os vagabundos preguiçosos que não irão assitir o video inteiro, vejam pelos menos o que está entre 7:30 e 8:10.

sallqantay

Leia a obra do grande mestre e pare de se envergonhar.

sallqantay
Veterano
# fev/16
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General Patton

ele ensina a construir um belezômetro?

General Patton
Membro Novato
# fev/16 · Editado por: General Patton
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sallqantay

Se você não sabe diferenciar a beleza do resto tu é só mais um pós modernista relativista nojento e deve sair desse tópico tradicionalista cristão.

sallqantay
Veterano
# fev/16
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General Patton

eu só pedi uma forma de medida, uma métrica terrena que permita o fim da confusão. Sei que a medida última pertence ao divino, e que nossas medidas são falhas. Falhas mas necessárias

Edward Blake
Membro Novato
# fev/16
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sallqantay
ele ensina a construir um belezômetro?

Contemplation of Beauty

The encounter with the beautiful can become the wound of the arrow that strikes the heart and in this way opens our eyes, so that later, from this experience, we take the criteria for judgment and can correctly evaluate the arguments. For me an unforgettable experience was the Bach concert that Leonard Bernstein conducted in Munich after the sudden death of Karl Richter. I was sitting next to the Lutheran Bishop Hanselmann. When the last note of one of the great Thomas-Kantor-Cantatas triumphantly faded away, we looked at each other spontaneously and right then we said: "Anyone who has heard this, knows that the faith is true." The music had such an extraordinary force of reality that we realized, no longer by deduction, but by the impact on our hearts, that it could not have originated from nothingness, but could only have come to be through the power of the Truth that became real in the composer's inspiration. [Message to Communion and Liberation, August 2002, Rimini, Italy, made available May 2, 2005, Zenit)

http://www.ceciliaschola.org/notes/benedictonmusic.html#Contemplation_ of_Beauty



General Patton
Membro Novato
# fev/16
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sallqantay

Assita ao video e terás uma boa introdução.

Insufferable Bear
Membro
# fev/16
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Meu deus, só sobrou retardado nesse fórum...

Edward Blake
Membro Novato
# fev/16
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Insufferable Bear

Sinceramente, você escuta música sacra (como essa, três posts acima) e não sente nada?

Insufferable Bear
Membro
# fev/16
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Edward Blake
tédio conta?
e é esse o ponto central da discussão? arte tem que ser bonita pra você sentir coisas?

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