Dúvida sobre o método de harmonização utilizado antes da consolidação do sistema tonal

    Autor Mensagem
    romulomelo
    Membro Novato
    # 01/fev/19 00:28 · Editado por: romulomelo


    Bem, nos últimos meses eu venho escutado algumas peças muito antigas, de 1500 até o começo do barroco musical. Eu pude constatar que os compositores antigamente usavam uma forma de harmonização muito ambígua, entendem? Um exemplo é a composição do desconhecido compositor Picforth, chamada In Nomine:


    A harmonização desse tipo de música é muito bacana, não dá pra afirmar ao certo, na prática, se a música é maior ou menor, entendem?!

    Outro exemplo pra quem ainda não entendeu (até porque eu não consigo explicar isso muito bem) é a composição do compositor inglês Mallorie, chamada Yf Man in care, também muito bela:



    Percebam como o compositor navega por acordes maiores/menores de forma muito rápida. Isso causa uma sensação de ambiguidade (li sobre isso em algum forum, mas não estava muito claro). Enfim, Acho que já deu pra sacar o que eu quero dizer. Esse tipo de harmonia é muito diferente da harmonia tonal utilizada no período barroco.

    A minha dúvida é: como se caracteriza esse tipo de harmonização? É a tal "Harmonia modal"? Pois vejam este vídeo:


    O efeito harmônico causado é o mesmo! Mas aí eu pesquisei no youtube "Modal Harmony" e fui vendo vídeos... a maioria não tem nada a ver com essa harmonização que eu me refiro. Não encontrei nenhum material que fale sobre esse tipo de harmonização, e os que falavam em harmonia modal não têm nada a ver com o que eu procuro.

    Outra dúvida: onde posso aprender sobre esse tipo de harmonização? Conhecem algum bom livro?

    Ah, perdão se violei alguma regra do fórum, pois sou novato.

    LeandroP
    Moderador
    # 01/fev/19 01:14
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    romulomelo

    Não sei lhe responder isso e confesso que fiquei curioso.

    Quem poderia ter uma boa resposta aqui no fórum é o nosso colega Jabijirous, mas, faz tempo que não vejo ele postando.
    Ele tem um canal muito legal no YouTube
    https://www.youtube.com/channel/UCwXu89GucLxfnqRGvFIS8rQ/videos

    Beto Guitar Player
    Veterano
    # 01/fev/19 08:31
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    romulomelo
    LeandroP


    Acho que o Ken Himura também poderia saber algo a respeito.
    Quem sabe um dos dois não aparece por aqui?!

    LeandroP
    Moderador
    # 01/fev/19 10:16
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    Beto Guitar Player

    Bem lembrado!

    Gutovysk
    Veterano
    # 17/mai/19 10:46
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    romulomelo
    São músicas renascentistas ou pré-barrocas. Acho q essas q vc postou são pré-barrocas, onde no final aparecem acordes em picardia (mais comuns no barroco).

    Foi usado os modos gregos mesmo. Harmonia Modal.

    Diga-se de passagem que são músicas muito boas!

    Carlos Correia
    https://www.tecnicasdecomposicao.com.br

    Ken Himura
    Veterano
    # 26/jul/19 15:21 · Editado por: Ken Himura
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    romulomelo
    A harmonização desse tipo de música é muito bacana, não dá pra afirmar ao certo, na prática, se a música é maior ou menor, entendem?!
    Sim, porque aí vai depender do modo utilizado. Na época, eram 8*, 4 com sensação maior e 4 com sensação menor. Sensação é uma palavra forçada inventada por mim pra explicar alguns fenômenos auditivos que vão acontecer devido ao conjunto intervalar inerente ao modo. E, outra coisa, picardia* era uma prática bem comum na época.

    Mas aí eu pesquisei no youtube "Modal Harmony" e fui vendo vídeos... a maioria não tem nada a ver com essa harmonização que eu me refiro. Não encontrei nenhum material que fale sobre esse tipo de harmonização, e os que falavam em harmonia modal não têm nada a ver com o que eu procuro.
    Infelizmente é verdade. Chutando por baixo, 90% dos que falam em "modal harmony" na internet não sabem do que estão falando - geralmente, falam de empréstimo de sonoridade de um modo x dentro duma tonalidade comum. Ou de escala de acorde, o que eu considero sacrilégio hahaha. Harmonia modal, principalmente da forma que era usada aí (antes de surgirem os conceitos modernos de acorde e harmonia) tem um pensamento bem diferente do nosso ii-V7-I de cada dia.

    Outra dúvida: onde posso aprender sobre esse tipo de harmonização? Conhecem algum bom livro?
    As músicas desse período foram "cristalizadas" nas regras de contraponto vocal - não é a toa que todos os manuais de contraponto do século XVI são regras estéticas modeladas em cima da música do Palestrina. Então, o seu rumo é estudar contraponto, principalmente vocal, e focado nas técnicas do séc. XVI.

    Dois livros ótimos pra começar: J. Fux - Gradus Ad Parnassum e A. Mann - The Study of Fugue. O próprio Mann tem uma edição do Gradus (ele traduziu do latim o original) muito boa. E também tem um livro bom (mas avançado) que foi a tese de doutorado do musicólogo Knud Jeppesen: The Style of Palestrina and the Dissonance.

    Também tem um livro legal do Robert Gauldin: A Practical Approach to 16th-Century Counterpoint.

    Todos esses são fáceis de achar pela internet em pdf. E são baratos (no exterior) também.

    Mas o pensamento principal aqui é: independência de linhas melódicas paralelas, seguindo as notas de um (ou mais) modo(s). Não existe pensamento vertical nesse estilo, a harmonia é fruto puramente de "coincidências" decorrentes das interações intervalares (que são pensadas e bem estruturadas) entre as vozes.


    ---
    *
    Os 8 modos canônicos da música gregoriana/medieval/renascentista: Dórico, hipodórico, frígio, hipofrígio, lídio, hipolídio, mixolídio e hipomixolídio. Claro que vez ou outra aparece um outro modo diferente em alguma música, mas no grosso eram esses 8.

    Picardia - trocar o acorde menor pelo homônimo maior da tônica (ou finalis, segundo a teoria da época), geralmente no fim da música ou período. A origem da prática é incerta, mas o nome veio da região francesa de Picardia, onde há muitas catedrais. Provavelmente, é mais uma contribuição da escola flamenga/holandesa para o desenvolvimento do que virou a arte do contraponto mais tarde. A ideia metafórica aqui era o "sol dissipando as nuvens" no fim das músicas, para reforçar a ideia de bondade, felicidade, júbilo etc, mesmo na dor (é aqui que surgiu o vírus "maior feliz, menor triste").

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