da violência em manifestações

    Autor Mensagem
    sallqantay
    Veterano
    # ago/13


    Onde fica a fronteira entre a violência ‘simbólica’ e a violência ‘real’?

    DEMÉTRIO MAGNOLI

    “Muitos dos jovens que estão usando essa estratégia da violência nas manifestações vieram das periferias brasileiras. Eles já são vítimas da violência cotidiana por parte do Estado e por isso os protestos violentos passam a fazer sentido para eles.” Rafael Alcadipani Silveira, autor do diagnóstico que equivale a uma celebração do vandalismo, não é um músico punk, mas um docente da FGV-SP. O seu (preconceituoso) raciocínio associa “violência” a “periferia” — como se esse sujeito abstrato (a “periferia”) fosse portador de uma substância inescapável (a “violência”).

    Por meio do conhecido expediente de atribuir a um sujeito abstrato (a “periferia”) as ideias, as vontades e os impulsos dele mesmo, Silveira oculta os sujeitos concretos que produzem um “sentido” para “protestos violentos”. Tais sujeitos nada têm a ver com a “periferia”: são acadêmicos-ativistas engajados na reativação de um projeto político que arruinou as vidas de uma geração de jovens na Alemanha e na Itália.

    No DNA humano estão inscritas as “pegadas” da evolução dos seres vivos. Nas obras de arte, encontram-se os sinais de uma extensa cadeia de influências que as interligam à história da arte. Similarmente, pode-se identificar nos textos políticos uma genealogia doutrinária, que se manifesta em modelos argumentativos típicos e expressões estereotipadas.

    O professor da FGV menciona a “violência cotidiana por parte do Estado”. Nas páginas eletrônicas dos Black Blocs, pipoca a expressão “Estado policial”. Bruno Torturra, o Mídia Ninja ligado a Marina Silva, definiu os Black Blocs como “uma estética” e defendeu a “ação direta”, desde que “dirigida aos bancos”. Pablo Ortellado, filósofo e ativista, elogiou a “ação simbólica” de destruição de uma agência bancária que, interpretada “na interface da política com a arte”, simularia a ruína do capitalismo. Eu já li essas coisas — e sei onde.

    Tudo isso foi escrito na década de 1970, pelos intelectuais italianos que lideraram os grupos autonomistas Potere Operaio, Lotta Continua e Autonomia Operaia. Eles mencionavam as qualidades exemplares da “ação direta” e a eficiência da “violência simbólica”. Toni Negri pregava a violência como ferramenta para defender os “espaços” criados pelas “ações de massa” e exaltava o “efeito terrível que qualquer comportamento subversivo, mesmo se isolado, causa sobre o sistema”.

    Avançando um largo passo, Franco Piperno clamava pela “combinação” da “potência geométrica da Via Fani” (referência ao sequestro de Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas, em Roma, no 16 de março de 1978) “com a maravilhosa beleza do 12 de março” (alusão ao assassinato de um policial, em Turim, pelo grupo extremista Prima Linea, em 1977).

    Depois do assassinato de Moro, Negri e Piperno foram processados e injustamente condenados a cumprir sentenças de prisão, que acabaram sendo revertidas. Intelectuais, de modo geral, não sujam as próprias mãos. Os líderes autonomistas não integravam as Brigadas Vermelhas ou a Prima Linea — e, portanto, não deram as ordens que resultaram em atos de terror. Eles apenas ensinaram a seus jovens seguidores, alguns dos quais viriam a militar nas organizações terroristas, que a violência é necessária, eficaz e bela. A responsabilidade deles não era criminal, mas política e moral, algo que jamais tiveram a decência de reconhecer.

    Onde fica a fronteira entre a violência “simbólica” e a violência “real”? Na noite de 2 de abril de 1968 bombas incendiárias caseiras explodiram em duas lojas de departamentos de Frankfurt, que já estavam fechadas. A ação pioneira do grupo Baader-Meinhof, inscrita “na interface da política com a arte”, foi cuidadosamente planejada para não matar ninguém. Era a violência “só contra coisas”, não “contra pessoas”, na frase de Ortellado para justificar as ações dos Black Blocs.

    O primeiro cadáver do Baader-Meinhof, um guarda penitenciário, surgiu na operação de resgate de Andreas Baader, em maio de 1970. Depois, vieram outros cadáveres, de chefes de polícia, juízes, promotores ou empresários. Tais personalidade seriam “símbolos” do “sistema” — isto é, segundo uma interpretação possível, “coisas”, não “pessoas”.

    A tragédia alemã precedeu a tragédia italiana, mas não a evitou. No “Outono Alemão” de 1977, um jovem radical desiludido escreveu uma carta amarga, irônica, indagando sobre os critérios para decidir quem tinha mais responsabilidade pela opressão capitalista — e, portanto, deveria ser selecionado como alvo. “Por que essa política de personalidades? Não poderíamos sequestrar junto uma cozinheira? Não deveríamos pôr um foco maior nas cozinheiras?”

    Os nossos alegres teóricos dos Black Blocs aplaudem o incêndio “simbólico” de uma agência bancária, mas ainda não se pronunciaram sobre o valor artístico da vandalização de edifícios empresariais, shopping-centers, delegacias, palácios de governo ou residências. Por que esse “foco” nos bancos?

    Eugênio Bucci — ele também! — usou a palavrinha “estética” quando escreveu sobre a suposta novidade do “esporte radical e teatral de jogar coquetel molotov contra os escudos da tropa fardada”. Não existe, porém, novidade. Ortellado publicou um artigo sobre as fontes da “tática” dos Black Blocs, evidenciando suas conexões com os movimentos autonomistas de “ação direta” na Alemanha e Itália dos anos 1970 e 1980, cujos destacamentos de choque servem de modelo aos nossos encapuzados. Ele não diz com clareza, mas as teses políticas que reativam o culto da manifestação violenta originam-se precisamente de alguns dos acadêmicos-ativistas daquele tempo, hoje repaginados como mestres grisalhos do movimento antiglobalização.

    Os Black Blocs anunciam um “badernaço nacional” para o 7 de setembro. Mas o “badernaço” intelectual começou antes, na forma dessas piscadelas cúmplices para idiotas vestidos de preto que rebobinam um desastroso filme antigo.

    bica: http://oglobo.globo.com/opiniao/nas-franjas-do-black-bloc-9534183#ixzz 2c442QSeo

    sallqantay
    Veterano
    # ago/13 · Editado por: sallqantay
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    achei digno

    brunohardrocker
    Veterano
    # ago/13
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    achei digno

    Tears Of Fire
    Veterano
    # ago/13
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    Não cheguei a ler o texto por que estou no celular (acho que poderiam até fazer uma modificação no forum para isso, uma versão com uma quebra de linha melhor é bem util..)

    Mas, na minha opinião, a violência chega a ser necessária em alguns casos...

    Felippe Rosa
    Veterano
    # ago/13
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    Li duas vezes e não entendi o que o texto propõe.

    Viciado em Guarana
    Veterano
    # ago/13
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    Vocês criaram estes monstros.
    Agora aguentem!

    brunohardrocker
    Veterano
    # ago/13
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    /renato russo

    landlord
    Veterano
    # ago/13
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    achei digno também...

    Die Kunst der Fuge
    Veterano
    # ago/13
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    Nem li, mas todo mundo que está lá merece apanhar mesmo.

    Incluindo os policiais.

    O sacerdote dos templos de Syrinx
    Veterano
    # ago/13
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    A violência não só é necessária, é fundamental.

    Desde que a mira esteja na cabeça certa.

    One More Red Nightmare
    Veterano
    # ago/13
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    up

    J x V x
    Veterano
    # ago/13
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    O sacerdote dos templos de Syrinx
    A violência não só é necessária, é fundamental.

    Desde que a mira esteja na cabeça certa.


    perfeito.

    sallqantay
    Veterano
    # ago/13
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    Felippe Rosa
    não entendi o que o texto propõe

    eu só achei que vai bem no sentido da falta de legitimidade e arbitrariedade dos atos de violência, e como certas pessoas incitam a violência e depois se escondem atrás de seus gabinetes forrados de livros.

    Ao meu ver não existe violência legítima (só a autodefesa), e a essência do anarquismo é a recusa do estado pela sua condição natural de violência.

    Não existe caminho para a paz, a paz é o próprio caminho

    Antoine Roquentin
    Membro
    # ago/13
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    Não existe caminho para a paz, a paz é o próprio caminho

    /quem sou eu orkut

    Viciado em Guarana
    Veterano
    # ago/13
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    sallqantay
    Ao meu ver não existe violência legítima (só a autodefesa)
    O conceito daquilo que é ou o não é legítimo foi criado por pessoas, e pode ser mudado por pessoas.

    Não existe caminho para a paz, a paz é o próprio caminho
    A paz nada mais é do que o equilíbrio de poderes.

    LeandroP
    Moderador
    # ago/13
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    Não existe caminho para a paz, a paz é o próprio caminho

    E a guerra é produto da paz.

    http://www.youtube.com/watch?v=KnYRQowDrWg

    Shredder_De_Cavaquinho
    Veterano
    # ago/13
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    guerra é paz






    [nemvouleressebesteirol]

    sallqantay
    Veterano
    # ago/13 · Editado por: sallqantay
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    Viciado em Guarana

    exato. E impor o sistema A ou B como legítimo através da força já tira a legitimidade da parada. Usou da violência ou apoia ela? Você é um autoritário (e isso vale para quem defende o estado e sua violência supostamente legítima)

    One More Red Nightmare
    Veterano
    # ago/13
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    lero lero, violência por violência eu sou muito mais aquela que se resolve na espadada, não num apaziguar burocrático impessoal todos de gravata e loção pós barba.

    megiddo
    Membro
    # ago/13
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    One More Red Nightmare
    radical

    brunohardrocker
    Veterano
    # ago/13
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    aquela que se resolve na espadada



    Viciado em Guarana
    Veterano
    # ago/13
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    brunohardrocker
    Caralho! De que época remota é isso?

    Felippe Rosa
    Veterano
    # ago/13
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    sallqantay
    agora sim eu entendi


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