Voz desafinada tem como alguém sair das trevas e aprender a cantar?

Autor Mensagem
francisco2004
Veterano
# jan/12 · Editado por: francisco2004


Pessoal,

Eu costumo frequentar a área de amplificadores/guitarra/efeitos, mas estou com uma dúvida que é recorrente há anos, mas só por curiosidade resolvi perguntar aqui na área de canto.

Alguém já conheceu uma pessoa que tinha um péssimo ouvido (e, portanto, desafinava muito ao reproduzir uma linha melódica) e conseguiu aprender a cantar num nível de excelência idêntico ao daqueles que são naturalmente afinados?

Digo isto porque desde que me conheço, desde a minha remota infância eu consigo cantar afinado, sem perder o tom. E há muita gente adulta que, embora consiga cantar no tempo da música, erra feio em várias notas. É como se ela se tornasse surda enquanto canta, pois quem consegue se ouvir cantando (ou seja, não há problemas de retorno), não deveria desafinar.

Enfim, alguém conhece casos de pessoas que conseguiram romper a barreira da desafinação e entraram no mundo dos aspirantes a ouvidos absolutos? Conheço várias pessoas esforçadas, que inclusive sabem tocar um instrumento musical, mas não evoluem nesse aspecto.

kiki
Moderador
# jan/12
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francisco2004
que eu saiba (ouvi da minha regente), excetuando casos patológicos, todo mundo pode aprender a cantar bem.
digo por experiencia propria, com treino e acompanhamento da pra evoluir muito.
por exemplo, o lance da afinação tem muito a ver com saber usar o apoio.

Enfim, alguém conhece casos de pessoas que conseguiram romper a barreira da desafinação e entraram no mundo dos aspirantes a ouvidos absolutos?
afinação nao tem a ver com ouvido absoluto. voce pode ser absolutamente afinado e não ter ouvido absoluto.

pois quem consegue se ouvir cantando (ou seja, não há problemas de retorno), não deveria desafinar.
não acho que essa conclusao seja valida.
eu por exemplo tenho um ouvido bem treinado (toco violao há uns 15 anos), mas pra cantar ainda desafino bastante. tenho consciencia disso, mas nao tenho ainda o controle da tecnica vocal.

francisco2004
Veterano
# jan/12
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Olá, kiki, obrigado por responder prontamente.

A minha experiência pessoal é de que eu até posso tentar cantar músicas com linhas muito difíceis, com agudos ou graves inalcançáveis e nessa tentativa eu poderia vir a desafinar, mas ok, seria um acerto entre mim e minhas cordas vocais, embora eu tivesse plena consciência de que desafinei. Então acho que me equivoquei mesmo: uma pessoa pode ouvir bem e desafinar.

Por outro lado, esses casos de desafinação são um tanto raros, pois em situações de improviso, por exemplo rodas de violão com amigos, sempre surge a alternativa de cantar uma nota uma oitava mais grave ou sobrepor a nota original com uma terça ou quinta mais fácil de executar.

O problema é quando erram em rajadas (várias notas erradas que fogem à linha melódica da música, que sequer pertencem ao campo harmônico das notas originais) ou, em outros casos, começam a cantar em outro tom (a linha melódica está correta, mas não está no mesmo tom do acompanhamento).

Eu acho que cantar afinado tem muito a ver com ouvido, pois ouvindo bem você consegue resolver rapidamente uma desafinação e buscar um caminho alternativo. Errar uma ou outra nota pode ser falta de domínio da voz, mas errar várias é ouvir mal mesmo, é a impressão que tenho...

kiki
Moderador
# jan/12
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francisco2004
O problema é quando erram em rajadas (várias notas erradas que fogem à linha melódica da música, que sequer pertencem ao campo harmônico das notas originais) ou, em outros casos, começam a cantar em outro tom (a linha melódica está correta, mas não está no mesmo tom do acompanhamento).
te garanto que eu era assim. só depois de uns 5 anos tocando violao e mais uns anos de canto coral é que aprendi a me ouvir.

curioso que eu aprendi a afinar o violao de ouvido bem facil, e sempre fui muito chato com isso, ficava afinando o tempo todo (meus amigos ficavam de saco cheio).
mas demorei anos pra perceber o que significava cantar afinado.
pra mim, eu simplesmente nao percebia o que era cantar afinado. e parece que é uma coisa muito comum, pelo que eu vejo por aí.

francisco2004
Veterano
# jan/12
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Bom saber... o aprendizado é algo muito complexo e existem vários caminhos para se chegar lá. Eu lembro que sempre tive facilidade para reproduzir com a voz algumas linhas melódicas, inclusive de jingles de comerciais de tv ou trilhas de jogos de videogame desde a infância. Inclusive fazia alguns "floreios" que desviavam da linha original, mas mantinha-se dentro da harmonia.

Mais tarde, na adolescência, a diversão era sobrepor vozes e formar acordes de vozes em músicas dos Beatles e Mutantes, entre outros. No início, chutava umas notas fora da harmonia, mas aprendi rápido e o violão pode ter ajudado, já que eu estava estudando intervalos musicais e alguns rudimentos de harmonia, mas principalmente, eu comecei a ouvir as músicas com mais cuidado, prestando mais atenção na linha de cada voz.

Então, ouvir para mim foi a grande ferramenta para aprender a cantar. Posso não ter a técnica de quem estuda na área e que sabe, por exemplo, fazer um drive sem prejudicar as cordas vocais ou soltar vibratos a la Caetano Veloso, mas consigo ao menos seguir um acompanhamento, algo impossível para quem não consegue fazer uma auto-crítica do que está ouvindo e cantando.

Del-Rei
Veterano
# jan/12 · Editado por: Del-Rei
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francisco2004
Cara, eu acho que canto MUITO mal... Se alguém algum dia me fizer cantar direito, será um milagreiro, hehe.

Acho o seguinte....
Existem as pessoas que têm nitidamente maior aptidão para cantar do que outras. Não vou entrar no mérito se isso é dom ao acaso ou habilidades herdadas de vidas passadas, mas tem gente que praticamente nasce fazendo determinadas coisas de forma magnífica. Já outros, podem tentar a vida toda que dificilmente chegarão a ser magníficos... Podem até vir a ser "bons", mas não magníficos como os que nasceram com aptidões, principalmente se estes últimos se propuserem a estudar e evoluir. O dom escolhe a gente... Ou não, hehe.

Ainda bem que está mais do que comprovado que pra fazer sucesso não precisa ser bom, hehehe.

Mas deixemos os experiêntes no assunto se manifestarem.

Um aceno de longe!!!

alakazan
Veterano
# jan/12
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sou baixo e fisiologicamente falando, possuo alguns problemas, pois pra mim é muito difícil reproduzir a nota certa( ou fica um tom a mais ou um tom a menos, e no começo era pior kkk, davam me dó 3 e eu dava dó 2 kkkk q triste ^^), acontece isso comigo não porque ouço mal e sim pq não consigo reproduzir com maestria a nota, contudo não desafino se diminuir uma oitava ou mesmo cantar um tom a baixo ou a cima da nota real, mas já estou treinando arduamente para poder reproduzir notas com maestria....há sim o baixo possui um timbre bem pesado e cheio e, em notas agudas, um tom metalizado, quando canto músicas de tenor, fica muito metalizado e eu não gosto >.<, prefiro cantar no meu tom o/

Leandro Rigon
Veterano
# jan/12
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Olá. De conhecidos que fazem técnica vocal, eu já vi 2 que que eram pavorosos e horrendos e chegaram a um nível mediano (quanto a afinação). Os dois ainda desafinam um pouco, mas quase nada comparado a catástrofe que foram outrora hehe.
Um desistiu. O outro persevera e gosta, mas se um dia irá cantar decentemente só o tempo dirá.

francisco2004
Veterano
# jan/12
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Os dois ainda desafinam um pouco, mas quase nada comparado a catástrofe que foram outrora hehe.

Pois é... essa melhora eu já percebi também com alguns conhecidos, mas parece que falta aquele "estalo", aquela percepção de que está afinado ou não. Neste momento, acho que é impossível o cara desafinar, pois se ele é capaz de perceber quando soltou uma nota errada, é muito fácil corrigir e voltar para o caminho certo.

Tinha que existir uma técnica para fazer com que todo mundo tivesse esse estalo de aprender a ouvir e reproduzir o aquilo que ouve.

Christhian
Moderador
Prêmio FCC 2007
# jan/12
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To vendo vocês chegarem em lugar nenhum... deixa eu mostrar uma coisa pra vocês.

http://www.4shared.com/mp3/mHSPYZVS/Through_the_glass_-_Aluno_do_C.htm l

A primeira frase foi gravada nos primeiros dias de aula. O restante, depois de 3 meses de aula. Hoje, ele já tem 8 meses de aula e praticamente domou a afinação.

A parte mais importante sobre afinação é descobrir as causas. Podem ser as mais diversas e, no caso desse meu aluno, tratava-se de uma ansiedade crônica que ele já sabia que tinha, mas nunca tinha aprendido como controlar. A segunda parte mais importante é a dedicação do aluno em resolver o problema e no caso desse aluno, foi mais do que determinante.

Então, com toda a sinceridade do mundo: Melhor do que tentar achar respostas genéricas num fórum de internet, por que não procurar um bom professor? Ele saberá identificar as causas e trabalhar junto de vocês as possíveis soluções.

PS: Deixei um 'bis' da música do meu aluno, pois esse merece! :)

Christhian
Moderador
Prêmio FCC 2007
# jan/12
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francisco2004
Enfim, alguém conhece casos de pessoas que conseguiram romper a barreira da desafinação e entraram no mundo dos aspirantes a ouvidos absolutos?

E só pra constar: Ouvido absoluto não tem absolutamente nada com afinação (com trocadilho).

Eu dificilmente perco uma nota enquanto canto e tenho um ouvido relativo, muito ruim, por sinal.

francisco2004
Veterano
# jan/12
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Christhian

Bem legal essa demonstração... aquela primeira frase é bem característica. Quem domina a afinação tem até dificuldade de reproduzir, então ao que parece "não houve truque". Dá para ouvir umas escorregadas, mas se eram 3 meses, foi uma evolução e tanto.

Pois é, cara. Acho que procurar orientação profissional é o melhor caminho, e essa amostra de áudio é um belo exemplo do que você é capaz de fazer. Parabéns!

Associado às aulas de técnica vocal, para quem tem disponibilidade e dinheiro, é interessante um fonoaudiólogo e até um terapeuta, já que você falou em ansiedade.

Christhian
Moderador
Prêmio FCC 2007
# jan/12
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francisco2004
O fonoaudiólogo/otorrinolaringologista é tão importante para o cantor quanto o ortopedista é para o guitarrista.

Na prevenção, ele vai lhe ensinar alongamentos e trabalhar seus hábitos pra evitar uma LER. Na profilaxia, vai lee ajudar a superar enfermidades. Mas médico não é professor de música e ele não vai sequer lhe ensinar improvisos com pentatonica.

Bom para aprender é professor.

Abraços.

francisco2004
Veterano
# jan/12
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Christhian
E só pra constar: Ouvido absoluto não tem absolutamente nada com afinação (com trocadilho).

Em tese, não teria. Se você reconhece, através da audição, que uma nota musical foi exatamente o Lá 440Hz, não quer dizer que você consegue reproduzi-la com a voz. Mas após algumas tentativas de vocalizar a nota, você ao menos será capaz de avaliar se errou feio, se chegou perto ou se acertou. Por isso eu acho que ouvir bem tem uma relação forte com cantar afinado, pois ouvindo você é capaz de avaliar se errou ou acertou.

Com o tempo, você "decora" a quantidade de ar, a força que precisa empregar para reproduzir esta ou aquela nota e aí irá desafinar menos. Essa é a minha impressão, mas é totalmente pessoal e não quero desmerecer o conhecimento de um técnico no assunto. Valeu para mim, mas não quer dizer que valha para todos.

francisco2004
Veterano
# jan/12
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Christhian
O fonoaudiólogo/otorrinolaringologista é tão importante para o cantor quanto o ortopedista é para o guitarrista.

Ou um fisioterapeuta. Eu não fico 8h por dia em cima da guitarra, mas se fosse este o caso, certamente eu faria fisioterapia, pois estaria sujeito a uma LER em função do trabalho intensivo sobre o instrumento.

Eu simpatizo com tudo que é interdisciplinar, mas é claro que o investimento pode tornar o aprendizado proibitivo. Que é interessante o cara cercar-se de várias abordagens, é. Não é a toa que numa faculdade recebemos uma enxurrada de coisas que cremos não ter utilidade, mas essa multidisciplinaridade nos abre horizontes inconscientemente.

makumbator
Veterano
# jan/12 · Editado por: makumbator
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francisco2004
Com o tempo, você "decora" a quantidade de ar, a força que precisa empregar para reproduzir esta ou aquela nota e aí irá desafinar menos

Mas isso não é ouvido absoluto, é memória muscular. Eu toco contrabaixo acústico com arco, e nesse tipo de instrumento(sem trastes e sem marcações) a afinação é um tópico importantíssimo(como na voz). Não tenho ouvido absoluto(possuo o ouvido relativo bem desenvolvido), mas possuo a memória muscular no contrabaixo acústico para saber aonde cada nota está localizada. Tocar com o arco expõe ainda mais uma possível desafinação(que no pizzicato passa como aceitável). Aparentemente, o arco enaltece harmônicos diferentes do toque com pizz.

Observe que não se usa o ouvido para atacar a nota certa nesse caso(afinal, a nota ainda não foi tocada). O ouvido entra em ação após a execução da nota(aí sim se avalia de ouvido se está afinado, alto, baixo, "quase afinado", etc...). Mas antes de a executar, é a memória muscular que comanda, e diz à mão e aos dedos o local certo da nota.

Quando a gente pega um instrumento diferente(coisa comum em contrabaixo acústico, pois ás vezes não levamos o baixo próprio, e tocamos com outro alugado ou do local do concerto), a diferença é enorme, e a mesma memória muscular precisa ser "recalibrada" para o instrumento diferente(comigo esse processo leva alguns minutos de escalas, arpejos e frases conhecidas).

Mas mesmo assim com a recalibragem momentânea, a gente sempre toca mais afinado no instrumento principal, justamente por causa da memória muscular bem desenvolvida pela prática.

O ouvido continua o mesmo, mas o cérebro perde um pouco da referência que a memória muscular tinha no instrumento principal.

francisco2004
Veterano
# jan/12
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makumbator
Mas isso não é ouvido absoluto, é memória muscular.

Pensando bem, é verdade... uma coisa é ouvir, outra coisa é executar. Não é preciso ouvir para executar.

Um cantor pode ter sido treinado para associar a pressão de ar das cordas vocais a cada nota musical, mais ou menos num processo como decorar a tabuada. Assim, o 'input' desse músico não precisaria ser áudio, mas provavelmente uma partitura seria suficiente. Seria um músico mais 'gráfico'. Como input, uma representação textual; como output, áudio. Esse cantor-grafista poderia até conseguir improvisar, desde que ele tivesse uma boa base teórica de harmonia, já que pelos ouvidos ele não conseguiria se guiar.

Para mim, a música é áudio, é difícil imaginar a música apenas no campo das ideias, dos gráficos. Ser músico e não ouvir é como um amor platônico, é uma ideia que não se concretiza, que não é consumada. Mas eu sei que grandes compositores eruditos iriam refutar a minha opinião com veemência, já que compunham e se divertiam com a parte gráfica, às vezes até sem se importar muito com a audição. Beethoven, por exemplo. No lugar dele, eu teria mudado de ramo ao ficar surdo... me tornaria escritor ou pintor, sei lá. Para mim a música só tem graça e sentido quando é ouvida.

Não me importa se as notas estão harmoniosamente dispostas como na mais perfeita sentença matemática em uma partitura. Se eu não escutar, a música perde o sentido. Existe uma retroalimentação entre o que eu executo e o que eu ouço. Entendo e respeito os grafistas, mas para mim não serviria.

Quando a gente pega um instrumento diferente(coisa comum em contrabaixo acústico, pois ás vezes não levamos o baixo próprio, e tocamos com outro alugado ou do local do concerto), a diferença é enorme, e a mesma memória muscular precisa ser "recalibrada" para o instrumento diferente(comigo esse processo leva alguns minutos de escalas, arpejos e frases conhecidas).

Essa recalibragem me parece um processo fortemente ligado à audição, pois sem ouvir isso não seria possível. É nesse ponto que talvez eu não tenha me expressado bem, mas cantar afinado para mim tem a ver com essa recalibragem. Durante a adolescência tive alguns percalços em função da mudança de voz e às vezes quando eu cantava, dava umas escorregadas fora do tom. Porém, o importante é que graças à audição eu era capaz de voltar para o tom certo.

makumbator
Veterano
# jan/12 · Editado por: makumbator
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francisco2004
Para mim, a música é áudio, é difícil imaginar a música apenas no campo das ideias, dos gráficos.

Música é som(e silêncio), mas o processo físico e mental para se posicionar o dedo no local correto de uma nota é de memória muscular, que foi calibrada justamente com o ouvido(treinando, errando, comparando e arrumando). O ouvido não foi alijado do processo, mas quando a memória muscular encontra-se bem desenvolvida o ouvido não se "preocupa" mais com os ataques das notas.

É fácil observar como iniciantes na família do violino que tenham bom ouvido(por já tocarem outro instrumento antes, por exemplo) erram a afinação dos ataques das notas, e arrumam logo depois(usando o ouvido). O resultado é desagradável, pois fica um sobe e desce interminável a cada nota(principalmente nas longas, em que o cérebro tem mais tempo para avaliar a afinação). O que falta nesse caso é justamente a memória muscular das notas.

Muita gente abandona por não ter a paciência de treinar esse mecanismo, e como já tem bom ouvido, ficam desanimados com tantos erros(iniciantes sem um ouvido tão desenvolvido erram da mesma maneira, mas não percebem tanto, o que pode ser ironicamente positivo para não desanimar até aprender os fundamentos)

Esse cantor-grafista poderia até conseguir improvisar, desde que ele tivesse uma boa base teórica de harmonia, já que pelos ouvidos ele não conseguiria se guiar.

Não há relação entre a memória muscular e conseguir improviar ou não. Eu sei improvisar satisfatoriamente, e no contrabaixo acústico uso justamente a memória muscular para tocar as notas que desejo perfeitamente afinadas.

Isso não tem relação com ser mais ou menos criativo, é meramente um processo técnico e mecânico de afinação. Não diz nada sobre "o que você vai tocar". É apenas um mecanismo para garantir que as notas estarão afinadas desde o ataque inicial.

Garanto que todos os grandes improvisadores de instrumentos de sopro no jazz(por exemplo), também tem ótima memória muscular da embocadura(que tem relação direta com a afinação e ataque preciso). Eles não são menos "artísticos" por causa disso.

Inclusive, é comum no estudo dos sopros(principalmente metais, mas madeiras também), ficar treinando só ataques um bom tempo, para calibrar a memória muscular da embocadura.

Beethoven, por exemplo. No lugar dele, eu teria mudado de ramo ao ficar surdo... me tornaria escritor ou pintor, sei lá. Para mim a música só tem graça e sentido quando é ouvida.


Ele ouvia a música no melhor lugar do universo: a própria mente. Ele não precisava da confirmação sonora(assim como todos os grandes gênios), pois no plano das idéias a música já existia de maneira correta. O som era importante para os outros(que obviamente não estavam na cabeça dele). É por isso que ele não mudou de ramo. Apenas se tornou inviável tocar com outros músicos(pois não conseguia mais seguir um acompanhamento, ou ir junto de um solista ao fazer ele mesmo a base). Mas a composição permaneceu inalterada.

Pixinguinha por exemplo nunca escrevia uma grade com todas as partes, ele já ia fazendo direto as partes separadas do arranjo, pois como no choro via de regra não há um maestro, era preciso apenas a parte de cada músico, e o Pixinguinha sabia como todas elas iriam soar juntas, nem precisava ver todas elas montadas na pauta.

Eles não se importavam com o grafismo da partitura, mas tinham que escrever no papel justamente para que outros executantes pudessem "entrar" na música da mente de cada um deles. Mas o objetivo final sempre foi o som, seja ele físico(real) ou mental(no plano das idéias).

Essa recalibragem me parece um processo fortemente ligado à audição,

Mas é! Totalmente ligada, pois é com a audição que a memória muscular pode ser desenvolvida, mas depois de um certo tempo a gente não precisa mais do ouvido para saber que a nota X fica na posição Y na escala.

zugo
Veterano
# jan/12
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Me interessei nessa discussão! (:

Eu canto muito mal (talvez seja por que nunca exercitei a minha voz), e sempre me pergunto se um dia poderei cantar pelo menos afinado... é claro que a resposta será "treino", mas assim como ja citaram aqui, conheço pessoas (inclusive o vocalista da minha banda) que nunca haviam cantado antes e, quando o fizeram, cantaram afinados e se sairam muito bem...
Difícil explicar, não?! hehe#
Mas enfim... vo dar um UP aqui e ler com calma depois.

Abç!

francisco2004
Veterano
# jan/12 · Editado por: francisco2004
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makumbator
É fácil observar como iniciantes na família do violino que tenham bom ouvido(por já tocarem outro instrumento antes, por exemplo) erram a afinação dos ataques das notas, e arrumam logo depois(usando o ouvido). O resultado é desagradável, pois fica um sobe e desce interminável a cada nota(principalmente nas longas, em que o cérebro tem mais tempo para avaliar a afinação). O que falta nesse caso é justamente a memória muscular das notas.

É verdade... mas a audição ajuda, mais uma vez, a avaliar a força correta no ataque. Não conheço muito esse campo dos instrumentos fretless (escala contínua, não-discreta), mas vejo baixistas e violinistas seguidamente fazendo aquela modulação na corda, uma espécie de "bend" paralelo à corda e não perpendicular à corda como o bend na guitarra. Depois da sua explicação, essa modulação me parece uma forma de compensar a desafinação entre ataque e sustain, mantendo ambos os momentos do envelope sincronizados com a nota desejada.

Um exemplo da falta de sincronismo de "pitch" entre ataque e sustain na guitarra é quando se dá uma palhetada mais forte. Dá para perceber a desafinação momentânea no ataque, no instante da palhetada. Quem tem um afinador com ponteiro analógico percebe claramente isso. Há uma explosão de harmônicos que não refletem a nota pretendida. Num primeiro momento, o ponteiro oscila bastante, mostrando uma instabilidade na definição da nota no momento do ataque. Assim, geralmente a guitarra é afinada pelo decay/sustain e não pelo ataque.

francisco2004
Veterano
# jan/12
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zugo
conheço pessoas (inclusive o vocalista da minha banda) que nunca haviam cantado antes e, quando o fizeram, cantaram afinados e se sairam muito bem...

É esse o mistério para mim... como produzir um estalo capaz de fazer qualquer pessoa ter essa percepção. Mais ainda: quais as vantagens e desvantagens de se ouvir bem ou não.

Christhian
Moderador
Prêmio FCC 2007
# jan/12 · Editado por: Christhian
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francisco2004
zugo
e, quando o fizeram, cantaram afinados e se sairam muito bem...

Por experiência própria, nem sempre as pessoas estão tão afinadas assim, mas quem não canta acha que está. Isso acontece com cada instrumento: Um bend que não afina, um vibrato rápido demais, um portamento que não chega na nota. Aos ouvidos do 'ouvinte comum' está tudo OK, mas nem sempre é assim que ouve quem é especialista. É exatamente a meticulosidade que se refere o makumbator.

Lembrando que existem diversos registros de grandes músicos surdos. Beethoven talvez seja apenas o mais clássico de todos.

E aqui um estudo que diz que o cérebro de um surdo percebe a música exatamente na mesma região que um ouvinte normal.

http://emedix.uol.com.br/not/not2001/01nov27neu-uw-bod-surdez.php

Frisando: Afinação no canto é MUITO mais complexa que simplesmente ouvido. Envolve tb a memória muscular, mas lembrando que a voz não tem uma 'régua' física onde se procuram os semitons - e por isso muitos cantores não sabem nem qual é a tessitura do próprio instrumento.

Abraços.

Edson Caetano
Veterano
# jan/12
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Vou aproveitar o gancho deste tópico e fazer uma pergunta que sempre me intrigou tambem, bem relacionada sobre "sair das trevas" do não saber cantar...

Cantar afinado, é uma meta real, com treino e dedicação, acompanhado de um bom profissional para guiar por esta trilha de maneira correta, é completamente viável como os caros colegas deixaram bem claro para mim nos posts acima

Ou seja, vamos pensar então nesta minha hipótese, que eu hoje um cantor mediocre (sou mesmo), resolvi cantar, ao passar de vários meses, ou anos, de aulas sérias, dedicação, me tornei de fato um cantor, afinado e tudo mais

Porem, minha voz ainda continua mediocre, porem uma voz mediocre afinada, onde eu quero chegar é o seguinte: o TIMBRE da voz, acredito que o instrumento VOZ venha regulado de fábrica e não de para alterar, é isso mesmo, quem tem uma voz feia como a minha (subjetivo isso é claro), tem como tentar trabalhar isso, e se tornar algo agradável de ouvir, já viram casos assim ??

Pergunto isso, porque logo após superar a afinação, o timbre seria ao meu ver algo crucial para a formação de um bom cantor...

Villts
Veterano
# jan/12
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Edson Caetano
Porem, minha voz ainda continua mediocre, porem uma voz mediocre afinada, onde eu quero chegar é o seguinte: o TIMBRE da voz, acredito que o instrumento VOZ venha regulado de fábrica e não de para alterar, é isso mesmo, quem tem uma voz feia como a minha (subjetivo isso é claro), tem como tentar trabalhar isso, e se tornar algo agradável de ouvir, já viram casos assim ??
Cara, eu acredito que o timbre não muda, o que muda é o jeito de executar as notas e isso faz a diferença.

Certo, Christhian?

Christhian
Moderador
Prêmio FCC 2007
# jan/12
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Villts
Edson Caetano
Cara, eu acredito que o timbre não muda, o que muda é o jeito de executar as notas e isso faz a diferença.

Timbre, de fato, não muda.

Mas BELEZA não lhes parece algo muito subjetivo, não? O que é belo pra um não é pra outro e vice versa. Existem milhões de exemplos por aí pra comprovar, inclusive, que mais importante do que achar o próprio timbre feio ou bonito, é fazer o melhor que se pode fazer com o que tem.

E eu, de coração, não entendo esse julgamento sobre a própria voz em primeiro plano de várias pessoas que aparecem aqui. Também não é claro pra vocês que quem canta, não canta pra si mesmo, mas pra quem ouve?

Abraços.

francisco2004
Veterano
# jan/12 · Editado por: francisco2004
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Timbre é o resultado da sobreposição de vários componentes do espectro de frequências de um som. Essa perspectiva é a da síntese aditiva, que baseia-se na geração de timbres através da soma de senóides. O instrumento mais famoso que usa essa técnica são os órgãos Hammond. Acho que é uma das formas mais simples para se entender como funciona a formação de um timbre.

Há outras perspectivas, como a da síntese subtrativa, síntese FM, síntese por wavelets, mas assim como o Hammond foi um dos primeiros sintetizadores elétricos (talvez o primeiro tenha sido o Theremin), acho que a síntese aditiva empregada nele é uma forma fácil de explicar a formação do timbre.

Em resumo, o timbre é um conjunto de senóides que variam em amplitude e frequência ao longo do tempo. Para produzir notas musicais com o mesmo timbre, a ideia básica é alterar a frequência de todos esses componentes. Isto é aproximadamente o que acontece com um instrumento musical eletrico/acústico. Por isso conseguimos distinguir uma guitarra de um saxofone, mas não quer dizer que a guitarra não tenha alterações de timbre importantes ao longo da escala.

Eu diria que a voz humana pode assumir vários timbres, pois podemos não só alterar as notas musicais, mas gerar sons totalmente novos, imitando instrumentos percussivos, animais, órgãos. Às vezes dá para identificar como "um humano imitando uma galinha". Mas às vezes essa distinção é bem difícil, ao menos para os ouvidos humanos.

Acho que para efeito de simplificação, podemos dizer que a nossa voz tem um timbre. Mas também não seria errado que somos capazes de gerar timbres mais ou menos como acontece em relação as variações da dinâmica do guitarrista ao tocar o instrumento.

Um exemplo de como a guitarra é um poderoso gerador de timbres:http://forum.cifraclub.com.br/forum/3/278803/
(ouça até o fim)

francisco2004
Veterano
# jan/12
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Christhian
Existem milhões de exemplos por aí pra comprovar, inclusive, que mais importante do que achar o próprio timbre feio ou bonito, é fazer o melhor que se pode fazer com o que tem.

Concordo... conheço inclusive um músico-poeta conscientemente desafinado, não quer aprender a ser afinado, não dá a mínima se canta mal ou bem, mas produz música. Até não acho totalmente absurdo o som dele, pois tem ritmo, então a desafinação tem um papel estilístico na coisa.

Ah, agora lembrei de um cara que tá sempre na mídia, produz música de qualidade (já sei que vou ouvir críticas pois é um cara polêmico) e desafina pra caramba... e não dá a mínima para isso: Rogério Skylab

snd
Veterano
# jan/12
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Será que pitch-correction em tempo real ajuda a pessoa a melhorar afinação ao dar o feedback afinado para o cantor?

Exemplo: Vamos supor que um guitarrista pratique canto com uma digitech vocalist 4 com o pitch-correction ligado e fones de ouvido. O fato de ouvir a voz com um tom correto ajudaria o sistema motor a calibrar a própria voz para imitar o retorno e evitar oscilações?

francisco2004
Veterano
# jan/12
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snd
Eu acho que pode ajudar, mas não sei se com o tempo isso não se tornaria uma muleta. Tem muita gente que no início tem dificuldades para fazer backing vocals porque tende a seguir o vocal principal, Isso ocorre também quando o retorno de um vocal está muito alto, aí a tendência é que todos o sigam. Então esse negócio de "seguir o chefe" ocorre... Só tem que ver se a pitch correction não vai se perder dependendo do nível de desafinação.

Eu não usei esse efeito ainda, mas sei que está sendo usado direto na música pop tanto em tempo real quanto na pós produção. No especial Gil, Ivete e Caetano da Globo tenho quase certeza de que usaram direto. As vozes estavam com uma suavidade fake, meio sem textura. Acho esse efeito tem sido o Photoshop dos vocais hoje em dia hehehe. E olha que esses cantores não precisam de correção de pitch se o retorno estava bom... Mas os produtores tem exagerado nisso.

Leopold
Veterano
# jan/12
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Ok que se pode fazer imitação de cantores, sons, etc, porém o que se está dizendo aqui é a questão do timbre normal, aquele que vai identificar vc como cantor, lembrando que essas alterações demandam tensões e ajustes que não se pode manter por muito tempo, ou seja, não para um canto saudável.

O timbre não vai mudar, mesmo porque vc precisa ser identificado imediatamente pelo que apresenta, ser reconhecido pelo seu timbre natural.

Dessa maneira o timbre natural, vamos dizer, não muda, pode ser melhorado em qualidade, mas quem tem voz feia, vai ter voz feia e ponto. Fato é, que está cheio de gente por aí com voz feia fazendo carreira, aliás a maioria nao tem um timbre diferenciado.
Acho que isso é a última coisa que alguém deveria se importar. Não tem um timbre lá essas coisas? e daí? seja um cantor absurdamente bom tecnicamente, em interpretação, compense a falta de beleza da voz - SE FOR ESSE O CASO - com outras qualidades que a maioria tb não tem ou não se importa em ter.

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