Barbara Jolie Veterano |
# set/05
Para gravar o novo disco, Cordeiro faz aulas semanais para obter maior aproveitamento da voz Foto Divulgação
Resumo da
ópera
Em "Contratenor", Edson Cordeiro se dedica exclusivamente ao canto lírico, o qual dosou com equilíbrio durante a carreira
LUIZ CHRISTIANO
Florianópolis - Edson Cordeiro é um cantor sem estilo. E essa é sua melhor referência. Sua voz transita com indiscutível perfeição da disco music ao pop e da música popular brasileira (MPB) à música erudita. Agora, ele oficializa a ligação com o canto lírico com "Contratenor", disco temático com árias de óperas barrocas escritas por Händel, Willibald von Gluck, Johann Hasse, Mozart, Vivaldi e Bach.
Apesar de lançado em agosto, Cordeiro gravou o álbum ao fim de 2004. O projeto próprio foi amadurecido com o tempo. Em vez de tentar pela Sony, sua gravadora, apresentou a proposta a Paulus. "As multinacionais nunca investiriam nisso", acredita.
Para melhor registrar a voz única e a postação "intuitiva", como diz, foram necessárias dicas do professor de canto lírico Eduardo Janho Abumrad. "Qualquer cantor de ópera tem de ter uma de espécie de aberração, pois canta de um jeito que não fala", brinca a sério. Para conseguir melhor aproveitamento da "aberração", Cordeiro faz aulas toda semana com Abumrad.
O cantor de 38 anos nasceu em Santo André, na Grande São Paulo. O pai era mecânico e a mãe bordadeira. Aos seis anos, Cordeiro ingressou no coro Cordeirinhos do Senhor em uma igreja evangélica freqüentada pela família.
Depois, partiu para o teatro e chegou a cantar no centro de São Paulo, interpretando de árias a canções de Janis Joplin. Em seguida, participou no teatro do musical "Hair" e da ópera-rock "Amapola". Com a peça "O Doente Imaginário", de Molière, Edson viajou pela Europa, Estados Unidos, México e América Central.
Apesar de costumeiramente interpretar personagens que cantavam, foi apenas em 1990 que Cordeiro fez o primeiro show solo. A partir de então, vieram também os prêmios - foram seis Sharp (1992 e 1996, em diferentes categorias) e um da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA/1992).
Além de "Contratenor", Cordeiro lançou outros sete discos: "Edson Cordeiro (1)", "Edson Cordeiro (2)", "Terceiro Sinal", que misturavam árias de ópera, MPB, jazz, rock, gospels, "Clubbing", "Disco Clubbing" e "Disco Clubbing 2", com música eletrônica e disco, e "Dê-se ao Luxo". Todos pela Sony.
CONTRATENOR
O termo contratenor refere-se aos cantores que cantam em contraposição à linha melódica dos tenores. Há registros dos primeiros contratenores no século 14, em Portugal e Alemanha.
No século 16, na Espanha, descobriu-se que cantores castrados antes da puberdade não apresentariam mu-danças na voz mais tarde. A partir daí, iniciou-se a castração de meninos para cantarem nas igrejas, pois a epístola de São Paulo aos Coríntios, na bíblia, diz que as mulheres de-vem permanecer caladas du-rante as cerimônias religiosas.
Dois séculos depois, entrou em voga a "exigência de verdade dramática" na ópera, e a castração caiu em desuso. O último castrado profissional foi Alessandro Moreschi (1858-1922).
Entrevista / Edson Cordeiro
Anexo - Sempre cantaste em discos e shows uma ou outra ária, mas como surgiu a idéia de um disco exlusivamente erudito?
Edson Cordeiro - Sempre tive essa idéia. Não lembro quando, mas já tinha há muito tempo. Mas sabia que teria de me preparar muito. Sempre cantei ópera, mas sem fazer oficialmente. Sugeri o trabalho para a gravadora (Paulus) e me preparei muito com meu professor, há mais de um ano.
Anexo - Para gravar, precisaste "enformar" a voz com auxílio de aulas. Qual era a dificuldade?
Cordeiro - É como se preparar um personagem, é como um atleta tem de estar com os músculos preparados para uma maratona. Tive de mudar tudo, corpo e voz, para cantar ópera - que é o máximo que a voz humana consegue; é um grito educado, passa por uma disciplina. Pela primeira vez, tô entendendo melhor meu instrumento. Tenho dificuldade toda vez que abro a boca para cantar, é muita responsabilidade. A gente sabe que o palco é um desafio.
Anexo - Em São Paulo, no início da carreira, cantavas árias na rua, "passando o chapéu". Quando começaste com repertório erudito?
Cordeiro - Sempre gostei de ópera, sempre pela intuição. Comecei a cantar e ouvir ópera ao fim dos anos 1980. Fui dez anos evangélico e só ouvia músicas do gênero. Aos 16 anos é que conheci a música em geral.
Anexo - Qual teu compositor predileto?
Cordeiro - Tenho meus prediletos dentro de cada estilo e ouço de tudo, tudo o que me interessa. Gosto de Aretta Franklin, James Brown, mas varia dentro de cada estilo. Na ópera, gosto de Händel e Vivaldi, que tem composições belíssimas.
Anexo - Como serão os shows?
Cordeiro - São recitais agora, em teatros. Nas apresentações, o público recebe um libreto com as composições. É um marco na minha vida. Tô descobrindo ainda, como se eu fosse outro cantor. Aos 38 anos, estou começando mesmo, mas não significa que eu esteja mudando, nem quer dizer que me converti à música clássica. A técnica (para a música clássica) vai me ajudar a cantar Noel Rosa, por exemplo.
Anexo - Mas serão apenas recitais?
Cordeiro - Tô trabalhando o que tô fazendo agora. Faço alguns shows de dance music, mas mais fechados, para não tirar o foco do que estou fazendo.
Anexo - Já sabes se o próximo disco será dance, erudito ou não tens idéia?
Cordeiro - Não tenho idéia mesmo. Mas esse disco é maravilhoso porque estimula as gravadoras a investirem em outros estilos. A música clássica não é importante porque é chique ou sofisticada, mas é importante para a formação cultural de uma pessoa. Não precisa estar inatingível, ela pode estar próxima. Se eu puder contribuir pra isso, vou ficar realizado.
Fonte: http://an.uol.com.br/2005/set/25/0ane.htm
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