Opinem sobre as coisas que me falam as vozes da minha cabeça

    Autor Mensagem
    Black Fire
    Gato OT 2011
    # 10/mar/26 22:45


    Al Ghazali, filósofo islâmico do Século XII, escreveu um dos livros que tem sido considerados um dos grandes divisores de águas no processo que culminou com o fim da chamada “Era de Ouro do Islam”: A incoerência dos filósofos.
    A obra polemiza com outros filósofos, sobretudo com Acivena (Ibn Sina), a quem acusa, tudo somado, de ter uma concepção pagã de mundo, baseada em Aristóteles e não na Revelação Corânica.
    Nesta obra Al Ghazali refuta diversos conceitos que atribui a tais filósofos, chama a atenção o tópico em que afirma que os filósofos não podem provar a existência do Criador - um argumento que pareceu em Avicena e aparecerá depois em São Tomás de Aquino, como uma de suas famosas provas -, chama a atenção o fato de Al Ghazali usar, em sua refutação, um argumento matemático, que usa conceitos de infinito, muitos próximas do paradoxo de Zenão, filósofo pré-socrático, e do moderno “Hotel de Hilbert”.
    O que chama a atenção é o fato de o “debate” Al Ghazali x Avicena ter dito, aparentemente, resultados completamente diferentes no oriente e no ociedente. No Ocidente, Avicena chega a Tomás de Aquino e, por ele, é continuado, seus conceitos como o bom e o belo, estarão na esteira do florescimento das artes e da filosofia no ocidente, nos séculos posteriores, que são de rápido progresso; já, no Oriente islâmico, o vencedor foi Al Ghazali, o que explicaria a ruptura da civilização islâmica com a filosofia aristótélica, gerando um impacto traumático na sociedade islâmica.

    Hipóteses:

    (1) O impacto de Al Ghazali não foi sentido no Ocidente devido à ausência de ferramental teórico para que ele fosse entendido. (2)É entendido após muitos séculos, quando já havia condições para a secularização; (3) pois, no momento em que Al Ghazali derrota Avicena, a fé passa a não ser uma exigência da razão, mas algo que depõe contra ela, o que já era apontado por Santo Agostinho. (4) Dessa forma, quando não há condições para secularização, a sociedade entra em crise, e essa crise é respondida por um fechamento, a filosofia torna-se algo não confiável, é necessário recorrer então à literalidade, ao não interpretado, a conclusão necessária será o Wahhabismo e seus derivados (hipótese que não quero me envolver: todo islamismo é hoje influenciado pelo Wahhabismo, incluindo o regime xiita iraniano).

    El Cid de Capricórnio
    Membro Novato
    # quarta às 15:59 · Editado por: El Cid de Capricórnio
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    Black Fire
    A incoerência dos filósofos.

    Você leu esse livro? Pode resumi-lo?

    (1) O impacto de Al Ghazali não foi sentido no Ocidente devido à ausência de ferramental teórico para que ele fosse entendido.

    Eu não sou exatamente um aristotélico, nem sou cristão, mas nunca vi uma objeção inteligente ao argumento cosmológico.

    Julgando só pelo pouco que li na Wikipédia e no ChatGPT sobre o livro, as objeções que Al-Ghazali levantou (principalmente o “ocasionalismo”) também parecem ser bem infantis. Não me arrisco a opinar mais fundo do que isso, pois não li o livro, e qualquer coisa que eu escreva aqui vai ser um chute no escuro e um possível espantalho.

    (2)É entendido após muitos séculos, quando já havia condições para a secularização;

    Se os argumentos de Al-Ghazali eram bons (e tudo depende dessa premissa), sim.

    Se os argumentos eram ruins, o que provavelmente aconteceu apenas foi que o Ocidente, depois do nominalismo e do protestantismo, se tornou um ambiente bem mais hospitaleiro para tendências religiosas irracionalistas („Vernunft ist die höchste Hure, die der Teufel hat“, dizia Lutero).

    (3) pois, no momento em que Al Ghazali derrota Avicena, a fé passa a não ser uma exigência da razão, mas algo que depõe contra ela, o que já era apontado por Santo Agostinho.

    Agostinho era mais cético (do que um escolástico), mas não era hostil à razão (“Credo ut intelligam”, dizia ele), tanto que ele mesmo formulou um argumento filosófico (platônico, em vez de aristotélico) em favor da existência de Deus.

    (4) Dessa forma, quando não há condições para secularização, a sociedade entra em crise, e essa crise é respondida por um fechamento, a filosofia torna-se algo não confiável, é necessário recorrer então à literalidade, ao não interpretado,

    A filosofia também perdeu a confiabilidade no Ocidente. O fundamentalismo protestante não vingou porque a ciência já estava razoavelmente desenvolvida e acabou se tornando a nova religião de um mundo tomado pela técnica.

    Wild Bill Hickok
    Membro Novato
    # quinta às 06:57
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    Black Fire
    tópico em que afirma que os filósofos não podem provar a existência do Criador

    Me parece óbvio, questão metafísica se resolve com fé, e não com razão

    infinito, muitos próximas do paradoxo de Zenão, filósofo pré-socrático, e do moderno “Hotel de Hilbert”.

    Em matemática existem vários infinitos, não sei se é a mesma coisa.

    Zenão seria X/N e o Hotel de Hilbert seria N+1 (N tende ao infinito)

    Ocidente, Avicena chega a Tomás de Aquino e, por ele, é continuado, seus conceitos como o bom e o belo, estarão na esteira do florescimento das artes e da filosofia no ocidente

    Vários saltos lógicos aqui, e uma visão da história de trás para frente, onde o resultado dado é procurado no passado. Engenharia reversa

    El Cid de Capricórnio
    A filosofia também perdeu a confiabilidade no Ocidente. O fundamentalismo protestante não vingou porque a ciência já estava razoavelmente desenvolvida e acabou se tornando a nova religião de um mundo tomado pela técnica.

    Para combater esse embuste progressista a filosofia é a única arma

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