Quando não existiam Dj's e a história das bandas de baile

    Autor Mensagem
    Ismah
    Veterano
    # jun/17


    Esse formato de banda, é um formato cada vez mais incomum atualmente no país. Normalmente se tem alguns proprietários, nem sempre músicos, as vezes só empresário/os, que contratam músicos para tocar.

    A ideia da banda nem sempre é com fins artísticos, mas sim de entretenimento. Tal qual uma orquestra, que na prática não CRIA NADA, mas apenas interpreta obras, e era algo normal a nobreza dar festas ou até manter uma orquestra (alguns músicos ao menos) no passado para animá-las...

    Creio que o auge das bandas de baile era a década de 50 até meados de 80. O motivo é um tanto óbvio: som mecânico (como se chamava no passado) era uma tecnologia que engatinhava, logo era muito cara, e acabava compensando uma banda para tocar de tudo - tudo mesmo.
    De lá pra cá a tecnologia foi barateando, o boom da música eletrônica em geral, nos idos de 90~2000 ajudou bastante também. E as bandas foram sendo substituídas gradativamente por DJ's, bem mais baratos e práticos, nos "bailinhos".

    Os mais velhos do fórum, ainda podem confirmar, mas o bailinho, tinha uma função social TREMENDA. Bem diferente de ir pra balada hoje, que é algo comum.

    Eram organizados principalmente pelos clubes, e só entravam membros. Os clubes são agremiações em torno de algo, foi uma tendência que creio ter começado na Europa até onde sei, nos fins do século XIX e começo do século XX.
    Os mais populares são os desportivos, como os de futebol e ciclismo (Audax Club Parisien, a própria UCI, autoridade máxima no esporte). Mas mesmo os famosos por algum esporte, são poliesportivos.
    Temos casos como o Flamengo, que tem por nome completo "Clube de Regatas do Flamengo" (por causa do bairro onde se encontrava), fundo em 1895, quando o remo era um esporte popular no RJ e o futebol ainda visto com estranheza.

    Ser membro de um clube, era um grande símbolo de status nas classes média e alta. Raras vezes pessoas de fora eram convidadas.
    Ainda hoje eles existem, mas bem menos marcantes, é mais comum se realizar festas abertas com cobrança de ingressos. Arrisco a dizer que o Carnaval, era o equivalente popular aos clubes.

    Hoje o mercado das bandas de baile mudou, eventos sociais e formais, formaturas, eventos públicos, algumas feiras... E também já não só mais bandas, é uma performance completa, que inclui efeitos especiais, dança, música, mágica...

    Talvez o Roupa Nova seja a maior banda de baile de todos os tempos no país. Apesar de ter um som autoral, eles tocam e tocaram de tudo no show. Posso estar equivocado, mas eles inspiram muita gente, principalmente nas partes vocais.

    Internacionalmente isso também acontece, casos como do projeto Trans Siberian Orchestra apesar de ser uma "orquestra de metal ópera", geralmente com um conto natalino, tem muito disso. Rammstein é outra banda internacional que apesar de autoral, tem uma performance muito mais como espetáculo que apresentação musical. O pop é praticamente apenas performático, deixando a música quase que completamente em segundo plano.

    De volta ao brasil... No topo da pirâmide atual, poderíamos por a Garota Safada (Fortaleza/CE), que hoje é banda de apoio do Wesley Safadão - ele é filho de Valmira "Dona Bill" de Oliveira. Mas... Ela tem um cerne autoral ainda!

    Do ponto de vista não-autoral, quem está no topo são 3 bandas - dá para dizer que são uma só, mas 3 ao mesmo tempo: Lex Luthor, Gang Lex e Mr Lex - todas de propriedade da Lex Luthor Produções e eventos, de São Paulo / SP

    Abertura Banda Lex Luthor - https://www.youtube.com/watch?v=-kkhE93y22o
    Lex Luthor DVD 20 anos - https://www.youtube.com/watch?v=DxR01wbFGxA

    Promocional Gang Lex https://www.youtube.com/watch?v=FkWdPL0jhBI
    Gang Lex ao vivo, Hey Brother - https://www.youtube.com/watch?v=2di65ck6aog

    Da MrLex não tenho nada para recomendar.

    Ismah
    Veterano
    # jun/17 · Editado por: Ismah
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    Aqui no sul, no norte e nordeste esse formato de banda sobrevive muito bem ainda. E foi que foi, até que viraram gêneros próprios!

    Como sou do RS, obviamente só posso falar daqui. O gênero aqui chamamos de bailão. Nele se fundiu uma pá de gêneros, pois como se tocava de tudo, se misturou de tudo. rsrs
    Acabamos fazendo uma certa distinção das bandas que tocam mais genéricamente de tudo (rock, axé, pop, eletrônica, funk, sertanejo...) como bandas-show, das que tocam mais gêneros regionais definidas como bandas de baile - se bem que vivem flertando com o que tá no mainstream, como funk, sertanejo, maxixe/tchê music - precursor do sertanejo lá nos anos 2000 e pouco, que dá para dizer que é uma música tradicionalista gaúcha repaginada. A origem é no centro-oeste, feita por gaúchos que migraram pra lá, e respingou aqui no sul.
    Nosso conservadorismo veio a tona e deu altos problemas: várias bandas tradicionalistas migraram pro gênero e foram expulsas (!) do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), ficando proibidas de tocar em CTG's oficiais - há regalias para estes formato de clube... Enfim o gênero trouxe bandas como o Grupo Tradição a tona, e que lançou Michel Teló...

    O nosso bailão tem suas raízes na jovem guarda, música típica alemã, alguma coisa de rock e pop... Hoje como disse há a distinção, mas não era incomum na década de 80/90 tocar-se metal, talvez o Final Countdown do Europe seja o mais popular e ainda algumas poucas bandas tocam.

    Algumas cidades e regiões são polos de bandas. A fronteira com a RS-Argentina-Uruguai é a região mais favorável, pois no lado dos hermanos os equipamentos desde sempre foram mais baratos, facilitando o acesso, e o custo para trazê-los pro país é baixo.

    Mas nem sempre é via de regra... Cidades de cima da serra tem bastante bandas. Garibaldi (berço da multinacional Tramontina) e Carlos Barbosa (berço da primeira filial da Tramontina), duas cidades próximas a minha, infelizmente estão deixando (Garibaldi já deixou) seu passado dourado para trás. Históricamente lembro de terem tido sede de umas 9 ou 10 bandas. Outra cidade que é um polo de bandas é Montenegro, também bem perto de mim.

    Ismah
    Veterano
    # jun/17
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    Quem dá para se dizer que é o marco zero no RS, é uma banda que faz 50 anos ano que vem: Os Atuais (Tucunduva/RS, próximo a fronteira).
    Não é por nada que eles carregam o nome de "Reis do Baile" a muitíssimo tempo, porque realmente a formação original já era acima da média.

    Curiosamente, o primeiro disco de 71 não tem nada a ver com o que tocam hoje, estavam mais para uma banda de surf music, country, com altas doses de jovem guarda, bem popular na época. Se não me falha a memória, era até instrumental.
    E ainda mais curiosamente, tem gravado desde 71, um disco por ano - ao menos não lembro de terem falhado algum ano. O boom da banda foi em 83 com o disco Barco do Amor.
    É unânime que todo mundo queria ter esse disco, e isso se reflete no número de cópias: mais de 200mil cópias. Um número não tão grande para padrão atual, mas nas palavras do próprio Ivar (fundador, ex-membro e diretor artístico), eles por serem uma banda do interior, de um canto esquecido, foi surpreendente. Se pensar que foram vendas praticamente só em 2 estados, é um número bem expressivo para a época.

    A banda chama bastante a atenção por usar muitos arranjos vocais, várias e várias músicas tem passagens com 5 ou 6 vozes. Bem comuns em bandas como americanas, como Alabama, e nas marchinhas de carnaval da década de 50/60.

    Da formação original só resta mesmo o Alcino "Pino", que deve estar quase com 80 anos já. O guitarrista original, Reni de Oliveira, se aposentou a uns meses infelizmente, e também já estava bem pra lá dos 60. E o já citado Ivar, que está apenas nos bastidores a anos.

    Do Reni, o vício da bebida e cigarro estava cobrando seu preço a um bom tempo já. Como amigo pessoal dele, já havia sugerido para ele parar a algum tempo, e tirar os últimos anos pra família - que segundo ele mesmo, os próprios filhos não o reconheciam sempre, de tanto tempo que passava fora com a banda. Foi uma das cenas mais tristes que eu vi até hoje.

    É fato que como vocalistas, o Reni e o Pino eram o coração da banda. Já está estranha a banda sem um de seus principais vocalistas, e não tem como dizer que o dia que o Pino se aposentar, a banda ainda terá uma sobrevida.
    A parte autoral é bem questionável. O Reni fez muitas versões, e não escondeu isso jamais, mas nunca fez questão de divulgar. O motivo era simples: "eu não canto em inglês" rsrs

    OFF: Ainda tento comprar um dos JC120 da década de 70 do agora aposentado guitarrista. Um dia ele me venderá! hehehe

    OFF²: É bem interessante o fato de que o sistema de PA, " deles " ¨* é o mesmo sistema de pelo menos 30 anos atrás: um PA EV, de subgraves modelo 4 caixas MTL4 de 120kg, e altas MTH4 de 180kg cada. Há um divisor de frequência original do PA. Foi visto em uso em Clube de Caxias do Sul, chamado Panela Velha, que existe até hoje, pelo Marconi Hubner Voss, atual dono de uma banda menor mas que está em acensão, chamada Rota Luminosa.

    * As aspas porque o técnico de PA/FOH engineer, Carlos "Carlão", comprou/ganhou o equipamento a muito tempo já, mas tem obrigação em sonorizar a banda até que ela existir.

    Ismah
    Veterano
    # jun/17
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    Bem vamos ao que interessa...

    Mais perto de mim, aqui do meio do caminho entre capital e serra, que é a banda Champion (atualmente de Portão/RS, na época de Montenegro/RS se não me falha a memória), restando apenas um membro original e hoje proprietário, Renato Weber, um dos metais (no vídeo, o com sax).

    Em 1990 https://www.youtube.com/watch?v=PVJJ6t00-Uk
    " Hoje " https://www.youtube.com/watch?v=ep-sjS-GfCU

    Uma característica é que a estrutura geralmente é toda da banda, ou seja própria (no caso ali é), mas apesar de ser muito, ainda é uma das medianas...

    Outra banda hoje extinta, que era realmente muito acima da média local da época, também de Montenegro: Locomotiva. Talvez a que mais era banda de baile no sentido que a mais tradicional. Sempre tiveram ligações boas, mas não sei como ou porque acabou lá em idos de 2009.

    Eu conheço alguns membros, e pessoas ligadas a banda. Mas é curioso que isso mostra como a música liga pessoas distantes.

    O Sílvio Rasche sempre mexeu com bandas, clubes/salões de festa. Curiosamente ele sempre teve um jeito de metaleiro, e trouxe vários desses pra banda, principalmente guitarra e baixo. hehehe

    O Edson Schneider tem um loja de música e estúdio relativamente grande.

    A Deisy Nascimento (vocalista que entrou depois e aparece na entrevista na rádio 88e7), é uma professora de canto com certo peso na região. Modesta a parte sou grande amigo do irmão dela, inclusive já fomos amigos de trabalho, mas faz um bom tempo que não o vejo.
    Mais curiosamente, ela é uma das poucas pessoas que além de cantar, fala afinada

    Lançamento em 1991 https://www.youtube.com/watch?v=ne8e5uL8qKA
    Ao vivo em 95 https://www.youtube.com/watch?v=48tEBKobOOE
    Ao vivo em 2008 https://www.youtube.com/watch?v=5ixZer1Yg2M
    Entrevista em 2009 https://www.youtube.com/watch?v=Og75VhRxVbI
    Abertura Carnaval 2009 https://www.youtube.com/watch?v=PptHQMhC_P4
    Reunião parcialmente original comemorativa em 2014 https://www.youtube.com/watch?v=zOoymLycEN0


    Um dos maiores do sul hoje é o Rogério "Magrão" (não sei o sobrenome real), tem muito mercado no RS e na Argentina. Ele era vocalista de uma das maiores do sul, banda San Marino (Santa Rosa, região de fronteira), junto com outro cara, "Negão" (nome artístico de Claudir Santos)...
    Ambos eram os frontmans, e levavam a banda nas costas desde o boom nos anos 90 ainda. O Negão não sei bem porque foi demitido, o Magrão dizem que foi preso por tráfico, mas não sei se aqui ou na Argentina.
    Todo modo, dizem que algum empresário BEM ABASTADO, injetou uma grana absurda, deu carreta, ônibus 4 eixos e tal pro cara...
    A banda é sem comentários, o pior músico lá dentro é monstruosamente bom, já fiz eles algumas vezes e cada música é de cair o queixo. Mas o Rogério em si, é meia boca... Faz o que tem que fazer, comunica de forma excelente, tem ótima presença de palco...

    Rogério Magrão e Banda ou RMB
    https://www.youtube.com/watch?v=pNkyarWGO7o

    Sal uma que começa a 9:23, creio que são TODAS músicas sucessos, pela antiga banda. Técnicamente não sei dizer se são composições dele, mas como a maioria das bandas, não tem registro das músicas não existe briga por execuções praticamente... Aliás, é visto como um favor ter a música rodada...

    MAS repare o adesivo na pele de resposta do bumbo, mostra que essa não é a estrutura da RMB, e sim a estrutura de outro gigante aqui do sul: Indústria Musical (Cerro Largo/RS, também região próxima a Argentina). Não creio que seja TUDO deles, afinal é uma feira, e outras coisas mais...

    O Indústria tem muitos méritos. Não sei BEM o que se passou, mas parece que eles tem um estúdio por lá, e a banda era formada pelos músicos do estúdio, ou seja, só músico bem acima da média.
    Não sei a origem exata, são dos anos 2000, mas nunca foi uma banda pequena. O destaque vai para a Loiara Gewehr (vocalista), não sei o que ela é dentro da banda, mas ela é desde o começo na banda.
    O que chama atenção na Loiara é que o tem de feia, tem de beleza no timbre grave da voz.

    Em 2007 https://www.youtube.com/watch?v=iUlczK9th34
    Em 2015 https://www.youtube.com/watch?v=qvTQQLilcFA
    Em 2016 https://www.youtube.com/watch?v=nxM25721kUs (gravação do DVD, mesmo palco do RMB acima)

    Vídeo de apresentação da banda, mostrando a estrutura própria da banda https://www.youtube.com/watch?v=kyX80Ve6coc

    Lelo Mig
    Membro
    # jun/17
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    Ismah

    Seu tópico começou bem, mas "cresceu demais", perdeu o foco (pode ser que eu não tenha entendido direito) e de uma reflexão sobre bandas de baile e sua função/localização histórica passou para uma "lista de bandas de baile"...



    Então vou me concentrar neste foco:

    "Os mais velhos do fórum, ainda podem confirmar, mas o bailinho, tinha uma função social TREMENDA. Bem diferente de ir pra balada hoje, que é algo comum."

    Apenas a imagem de banda de baile e de um DJ fala por si só (desprezando a questão logística e custos).

    - A banda de baile era um agrupamento de seres sociais, um grupo de amigos, felizes e repartindo sua felicidade com um grupo muito maior de seres sociais, e interagindo com eles.

    - O DJ é um ser individual, curtindo sua "vibe" de forma solitária, para um bando de seres individuais chacoalhando enquanto interagem com seus smartphones.

    É difícil para os mais jovens entenderem os anos 60, 70 e mesmo início dos 80, porque apesar de muito próximos eram muito diferentes.

    Minha infância foi muito semelhante a de meu pai que foi muito semelhante a de meu avô. O mundo tinha um ritmo lento e constante.

    A infância de meu filho foi muito diferente da minha, o mundo mudou nos últimos 30 anos o que não mudou em 1 século, antes.

    Não tínhamos internet, não tínhamos celular, nem computador, nem games. A TV era preto e branco, telefone era coisa de rico e todo mundo andava de buzão. O fusca na garagem (quem tinha) era só prá passear de domingo.

    E o mais importante "as garotas não davam fácil"..............Então, ir a bailes, era a rara oportunidade de ter uma garota nos braços por 2, 3 horas e era o mais próximo do Estrogênio que conseguiríamos chegar.

    Músico, sempre foi músico. Sujeito começa a tocar por identificação e prazer proporcionado por tal ato, se aproxima de outros iguais, se apaixona por ela, só fala em música 24 horas por dia, monta banda, estuda, ensaia e...

    ... faz trabalho autoral por paixão e monta banda de baile por diversão e para se garantir financeiramente até o autoral acontecer. Além de "fazer" o baile todo o final de semana e aumentar consideravelmente sua cota de Estrogênio.

    Paralelamente, compra equipamento, monta seu P.A e faz dinheiro com ele, porque loca quando não esta tocando.

    99% dos músicos de minha geração e anteriores viveram esta realidade.

    O lado bom é que a gente tocava, ensaiava, compunha, arranjava, instalava
    e operava mesas e equipos, dirigia, consertava, caia na estrada... aprendia de tudo um pouco, porém nada por inteiro ou especializado.

    Isso tudo dava uma socialização tremenda, uma grande convivência com as diferenças, uma maior compreensão do "outro" e a maturidade de resolver seus problemas com as armas que tinha e não levar prá casa... se tomava porrada, resolvia lá mesmo, do seu jeito, revidando ou chorando, mas sem levar a questão prá "mamãe".

    Hoje, não é melhor, nem pior... é diferente. A garotada é mais informada, se quiser tem acesso a tudo, pode se aprofundar a níveis impensáveis em meu tempo.

    No entanto, são menos maduros, mais inseguros e mais isolados.

    MMI
    Veterano
    # jun/17 · Editado por: MMI
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    Ismah
    Lelo Mig

    Seu tópico começou bem, mas "cresceu demais", perdeu o foco

    Pois é. Para mim começou mal, a definição de baile ficou fraca. Baile era qualquer coisa com música, ao vivo ou não, onde geralmente o pessoal ia curtir ou dançar. Uma boa definição é a que este doutor honoris causa de Berklee fez.

    Adler3x3
    Veterano
    # jun/17 · Editado por: Adler3x3
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    Bem vou comentar sob outro ponto de vista, o que vi acontecer, não no sentido do baile em si, mas os problemas em parte que causaram a queda deste entretenimento.

    Os clubes sociais de modo geral entraram em decadência, muitos fecharam, e outros continuam sobrevivendo às duras penas.

    Isto afetou as bandas.
    Todo o final de semana tinha algum baile ou boatinha para curtir com música ao vivo, fora as datas especiais onde tudo era bem mais caprichado.

    E toda a semana tinha também uma festinha ou outra em alguma residência nas redondezas.

    O poder aquisitivo da população era mais amplo, nas residências se faziam as festinhas com radiola mesmo ou fitas cassete, regadas a docinhos tipos brigadeiro, cuba livre, coca cola e salgadinhos.

    Sinto muitas saudades destes bons tempos.

    Ao mesmo tempo lá pelo início dos anos 70 começaram os playbacks nas TVs, que foram matando as música ao vivo.
    E começaram a surgir empresas de som para tocar playback junto com efeitos de iluminação, anterior aos DJS.
    Nos anos 60 e 70 existiam muitos programas na TV que tinham música ao vivo, mas aos poucos foram sendo substituídos pelos playbacks.

    Além dos bailes existiam eventos do tipo "sarau" aos domingos a noite, começava lá pelas 20:00 e ia até a meia noite.

    E outros eventos mais simples, mas nem por isto deixavam de ser um entretenimento com música ao vivo.

    Os músicos tocavam com ardor, muitas vezes com uma pobreza de instrumentos, todos meio que remendados, pois as importações eram proibidas, e o custo foi subindo, subindo e só com o efeito china mais recente a população pode ter acesso a melhores instrumentos.

    Não sei como era o sistema nos anos 40 e 50, mas o regime militar também contribuiu para que os instrumentos de modo geral ficassem muito caros, e as aulas de música nas escolas públicas caíram de nível a tal ponto que em quatro anos de estudo, o aluno não sabia montar nem uma clave de sol com as notas musicais.

    Um dos erros do regime militar foi o de promover o arrocho salarial, diziam que primeiro tinham que fazer crescer o bolo, para depois poder distribuir.
    Só que isto nunca aconteceu, foi arrocho atrás de arrocho, e não tinha como o sócio do clube se manter e pagar as mensalidades, e aos poucos foram se afastando, e os clubes foram quebrando, não conseguiam verba para manter as instalações, e chegou num ponto que começou a ruir.
    O mesmo aconteceu com os diretórios estudantis, que toda a semana promoviam bailes e outras confraternizações ao vivo, foi tudo sucateado deliberadamente.

    E assim conseguiram acabar com os bolos nas festinhas, ficou tudo fora do alcance do cidadão normal.

    Não sei até que ponto o ECAD dos direitos autorais afetou os bailes, o certo é que o custo e a burocracia aumentou muito entre outros fatores que levaram os clubes a perderem o rumo e o sistema de bailes ficou enviável e o número de bandas que se dedicavam a isto mingou.

    E o empobrecimento das classes sociais também levou a isto, é só ver como o salário mínimo em termos reais caiu assustadoramente, sendo que até hoje nem se compara com o valor real de poder aquisitivo dos anos 40 e 50, a queda foi vertiginosa.
    Mesmo uma família mais pobre conseguia fazer as suas festinhas com muitos convidados, a partir dos anos 80 até hoje isto ficou proibitivo, e agora conseguiram até acabar com o nosso churrasco.

    Comento isto sob o lado urbano, é óbvio que no campo o Brasil era muito pobre, e o povo muito sofrido, muitas injustiças sociais.
    Mas na parte urbana o brasileiro tinha a mesa mais farta, mas progressivamente (mas com um progresso invertido) as favelas foram aumentando e aumentando.

    A construção de Brasília levou o Brasil a conhecer a inflação, que acabou com o poder aquisitivo do brasileiro, criaram uma ilha da fantasia, e esta mudança empobreceu de sobremaneira o Rio de Janeiro, e o Rio indo mal, o Brasil inteiro vai mal.

    Transformaram a antiga capital no estado da Guanabara, e muitos cargos públicos ficaram duplicados, pois muitos funcionários se recusaram a se mudar para a nova capital, e até hoje o estado do Rio é o que tem mais funcionários públicos federais.

    A crise atual do Rio tem origem lá atrás, claro os tempos são outros e novos problemas surgiram devido ao desenvolvimento da corrupção., que fica centralizada em Brasília, onde os políticos vivem num outro Brasil, numa outra vida fora da realidade, onde os recursos são centralizados em excesso, e já nas cidades satélites da capital impera a má distribuição de renda.

    A riqueza é produzida nas cidades e nos estados, e o poder concentrador de Brasília levou ao desequilíbrio atual.

    Um estado arrecada e manda o dinheiro para Brasília, o que retorna aos estados e as cidades é pouco, a maior parte dos recursos se perde neste modelo centralizador.
    Vejam o caso de São Paulo por exemplo, as mazelas tem origem neste modelo.
    O estado gera riquezas paga impostos em excesso e tem um retorno insatisfatório, o meu estado também sofre com isto.
    Não tem governo estadual que consiga levar a um bom termo.

    Não que a capital do país mais centralizada no interior não seja adequada, mas a construção que foi superfatura a valores absurdos quebrou o país, e tudo foi mal conduzido, até os sacos de cimento e cal eram levados de avião, ferragens etc.

    E o final dos anos 50 não eram anos dourados como se diz por aí, sob certo ponto era melhor, mas repetindo existiam muitas injustiças que permanecem até os dias de hoje.

    Não sei quem inventou esta dos anos dourados, pura poesia mas sem sentido real, uma ficção um falso romantismo.

    Julia Hardy
    Veterano
    # jun/17
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    Na prática, é a mesma coisa.

    Ismah
    Veterano
    # jun/17
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    Lelo Mig

    O objetivo era contar a história, partindo de alguns dados que colhi aqui no sul. A história em Sampa deve ser outra, e que deve ser outra no Rio, e outra no nordeste, e outra no norte - aliás aqui, ainda há muito de cultura portuguesa pura.

    É bem vinda a posição de outros, já que eu só posso falar sobre a sociedade aí de cima...

    Adler3x3

    Uma coisa que mais noto entre RS, MS e MT, contra RJ e SP é a quantidade de carne consumida. Meu amigo, uma churrascada de qualidade em SP não diminui de 100 reais e com carne dura. Já aqui no sul 35 reais em diante e se come até rolar...

    fernando tecladista
    Veterano
    # jun/17
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    Interesante o texto, vou ler novamente com calma

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