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Para entender o q se passa no cérebro qndo se toca piano

Autor Mensagem
Juliano de Oliveira
Veterano
# abr/05


Livros de piano costumam trazer indicações sobre qual dedo usar para qual nota, mas quem precisar ler todas essas indicações na hora de tocar está frito. Em grande parte das músicas, as notas se sucedem a uma velocidade de pelo menos quatro por segundo, e é comum chegarem a oito, doze, ou até mesmo dezesseis por segundo - se bem que essas últimas fiquem reservadas a trinados executados por grandes concertistas... A tais velocidades, mesmo quem nunca tentou tocar piano pode supor que não resta muito tempo para o cérebro ir dando ordens aos dedos à medida que lê as notas. Aliás, mal deve dar tempo para que o comando de cada movimento seja produzido isoladamente.


Foi por isso que o psicólogo americano Karl Lashley (1890-1958) sugeriu, em 1951, que movimentos rápidos como o dedilhado do piano devem ser gerados pelo cérebro na forma de sequências de movimentos, ou programas motores, nos quais toda uma série de movimentos encontra-se planejada muito antes da sua execução. Para tocar uma melodia, bastaria lançar o programa, ao invés de ir gerando comandos separados para cada dedo a ser movido.
Seria uma solução econômica, com certeza - mas por outro lado, o uso de programas motores determinaria que a execução de cada movimento em uma certa sequência não fosse livre, mas sim dependente tanto dos movimentos precedentes quanto dos seguintes, já previstos no programa. Como resultado, ficaria difícil fazer ajustes em cima da hora: para mudar uma nota, seria preciso mudar o programa motor, e fazê-lo com antecedência.
Foi com base nessa restrição que John Soechting e seus colegas na Universidade de Minnesota, nos EUA, elaboraram um experimento para determinar se o controle dos movimentos dos dedos ao tocar piano obedece realmente a programas motores. Os pesquisadores tinham duas predições específicas a testar. Primeiro, se a execução de cada música obedecesse a um programa complexo, e não uma série de comandos independentes, os movimentos da mão de um pianista dedilhando repetidamente a mesma sequência de notas ao piano deveriam apresentar praticamente nenhuma variação entre repetições. E segundo, quando uma seqüência conhecida precisasse ser tocada com uma alteração ao seu final, sua execução deveria ser modificada em antecipação da alteração do movimento futuro, várias notas antes da nota alterada - na verdade porque um outro programa motor deve ser ativado antecipadamente, ao invés da alteração pontual de somente um dos movimentos.
O experimento contou com a cooperação de cinco pianistas, sendo três profissionais e dois amadores, que deviam tocar várias vezes ao piano, com a mão direita, uma ou duas frases de uma mesma música. Para comparar a execução da melodia e a posição dos dedos em cada uma das repetições, os pianistas usaram pequenos refletores colados às articulações de cada um dos dedos da mão direita. A posição de cada refletor era lida cem vezes a cada segundo por uma câmera de vídeo posicionada acima do teclado, um piano digital ligado a um computador que registrava cada nota tocada.
Tocando quinze vezes uma mesma melodia de oito notas, a variação nos movimentos dos dedos de cada pianista era de fato mínima, tanto no tempo quanto no espaço. Entre várias repetições, a posição dos dedos variava uns dois ou três milímetros, e nunca mais de meio centímetro. Além disso, cada nota era tocada precisamente no mesmo momento em cada repetição, com menos de um quinto de segundo de diferença entre todas as repetições de cada pianista!
Para testar a segunda hipótese, a da ativação de programas motores alternativos com antecedência, a tarefa dos pianistas era tocar duas frases musicais ligeiramente diferentes. Após um começo idêntico, tocando as mesmas notas com a mesma seqüência de polegar-indicador-dedo médio (1-2-3), uma das melodias, por exemplo, divergia na quarta nota, que ora devia ser tocada com o anular (1-2-3-4), ora com o polegar (1-2-3-1). Enquanto tocar a quarta nota com o anular é a sequência "natural" de movimento dos dedos, não exigindo alteração da posição da mão, tocar uma nota com o polegar após o dedo médio exige reposicionamento da mão, passando o polegar por sob os outros dedos - e portanto, uma mudança bastante acentuada da mão, facilmente detectável pela câmera de vídeo.
As predições eram simples. Se cada movimento fosse planejado e executado individualmente, o movimento da mão do pianista deveria diferir entre duas frases somente a partir da execução da terceira nota, a última idêntica. Se, no entanto, a execução da frase fosse planejada como uma sequência de movimentos, estes deveriam começar a divergir muito antes da execução da quarta nota - possivelmente mesmo a partir da primeira da frase, como se um programa diferente já estivesse em execução desde a primeira nota.
O que foi, de fato, encontrado. Embora a trajetória da mão seja semelhante entre as repetições da mesma frase musical, ao tocar a frase cuja quarta nota exige a passagem do dedão por baixo dos outros dedos, a mão adota posições diferentes, preparatórias, a partir do final da execução da primeira nota da frase - como se o quarto movimento, o toque com o polegar passando por sob a mão, já estivesse planejado ao começo da execução da frase ao piano, num programa motor alternativo.
Tocar piano, portanto, consiste em criar, treinar, e lançar programas motores cerebrais, que além de agilizarem a execução, garantem a constância da trajetória da mão entre repetições de uma mesma música. Ainda bem; ficaria difícil treinar o cérebro para tocar piano se cada movimento saísse sempre diferente...
A aquisição de novos movimentos requer a modificação das regiões na superfície do cérebro, ou córtex cerebral, que controlam cada movimento em isolado e os coordenam em seqüências, conforme mostrou a pesquisa do israelense Avi Karni e seus colaboradores no final dos anos 90, usando o imageamento cerebral durante o aprendizado ao piano. No entanto, quando bem treinada, a execução dos programas deixa de ser lançada pelo córtex, onde é sujeita a controle voluntário, e passa a ser responsabilidade de estruturas mais profundas, chamadas de núcleos da base, menos dependentes desse controle consciente.
O resultado interessante é que a execução passa a ser "automática", e o pianista tem a sensação de que os dedos se movem sozinhos, sem que ele precise pensar em comandá-los. Por isso é que, ao tentar tocar aquela música que você estudou anos atrás, ou sai tudo de primeira, ou não sai nada - e, se você empacar no meio, o remédio é começar de novo, do começo, para tentar recuperar a seqüência dos programas motores certos.
A má notícia é que qualquer intervenção consciente pode atrapalhar o encadeamento dos programas, com o risco de acabar dando um "reset" no cérebro. O que parece um pianista concentrado e consciente de cada movimento é na verdade um pianista cujas profundezas do cérebro estão em sintonia direta com os dedos, no melhor dos pilotos automáticos. Distrair o pianista quebra o transe, e só mesmo um pianista muito habilidoso para conseguir voltar ao piloto automático diretamente, sem deixar o córtex se meter na conversa dos núcleos da base com os dedos.
O que vale para pianistas profissionais vale também, é claro, para estudantes labutando em cima do teclado em casa, sujeitos a interrupções de mães, pais, irmãos, e amigos chamando para jogar bola. Talvez fosse uma boa adaptar aquela plaquinha dos ônibus, dizendo "Não fale com o motorista", para usar nas horas de treino... Daria até para explicar a razão: "Núcleos da base em treinamento"!

Black_Guardian
Veterano
# abr/05
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Juliano de Oliveira
mto bom o texto. apesar de eu nao tocar piano se encaixa tbm pra quem toca guitarra ou qualque outro instrumento q utilize os dedos

Mikhaelis
Veterano
# abr/05
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Perfeito o texto. É exatamente como ocorre comigo, não posso falar enquanto toco, e também memorizo as músicas em forma de bloco em vez de notas individuais. Se eu for tocar uma musica q executo ha anos e prestar a atenção, as vezes erro e me dá um branco. Tenho que voltar do inicio, como o texto diz; engraçado é q os erros também são memorizados, se eu erro uma parte fico errando por muito tempo essa mesma parte, pois acaba fazendo parte da memória de bloco... mto estranho

abraços

V. Augusto
Veterano
# abr/05
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Juliano de Oliveira
Perfeito isso! Eu toco piano há pouquíssimo tempo e isso realmente acontece.

Mikhaelis
Também não consigo falar enquanto toco piano. Se eu falar eu erro alguma coisa, perco o compasso.. e falo tudo rápido, meio embaralhado...

Richard Guitar
Veterano
# mai/05
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realmente, eu qnd tou tocando um compasso, as vezes eu já tou me preparando para alguns compasso que estã por vim em alguns improvisos.

Tigher
Veterano
# mai/05
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Muito bom o texto.
Realmente, se você vai tocar uma música que vc decorou faz um tempo, ou sai tudo ou não sai nada, e se vc tentar prestar atenção nas notas que vc tá tocando, vc esquece tudo!
Tocar piano realmente é uma coisa fantástica, vc não consegue achar explicação para algumas coisas.

Ken Himura
Veterano
# mai/05
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O esquisito é q eu consigo falar e tocar...exceto em alguns trechos...

Juliano de Oliveira
Veterano
# mai/05
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Pra falar a verdade, existem duas formas de memorização de uma música.Uma delas é a maneira em q o texto fala, q pode ser chamada de memorização por meio da repetição.A outra forma é a memorização por meio da compreensão, essa sim é a melhor forma de memorizar pq evita os "brancos" no meio da música.
Para conseguir desenvolver esse tipo de memória, é preciso compreender toda a relação harmônica e estrutural da peça em q se trabalha.Com certeza é difícil chegar ao ponto de conseguir uma análize tão detalhada de uma obra, mas sem dúvidas o resultado é compensador...Essa é a forma como a maioria dos grandes concertistas memorizam as partituras.

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